Por Laércio de Figueiredo Souto Maior, advogado, ex-diretor da Universidade Popular do Trabalho, preso político na ditadura de 64

O FUNDADOR

Zacaria Góes e Vasconcelos

No dia 10 de agosto de 1854, o baiano Comendador Zacarias de Góes e Vasconcelos, primeiro presidente da Província do Paraná, assinou o Decreto Lei nº 7, criando a Polícia Militar do Paraná, na época, com a denominação de Companhia de Força Policial da Província do Paraná. Abro um parêntese para destacar essa notícia: “O Jornal do Comércio”, do dia 23 de novembro de 1853, relatou que o vapor “Dom Pedro II”, trouxe além do Presidente da nova província, 150 praças de linha, quase todos negros e indisciplinados”. A primeira medida do novo governo foi instaurar a disciplina e o princípio da hierarquia no nascente corpo militar, que no decorrer do tempo se transformou numa instituição policial moderna nos serviços da administração militar contemporânea personificada nos diversos estamentos que a compõe: Academia Militar do Guatupê, Colégio da Polícia Militar de Curitiba, Corpo de Bombeiros, Orquestra Sinfônica da Polícia Militar do Paraná, Polícia Rodoviária Estadual, Polícia Florestal e Ambiental, Batalhão de Polícia Militar de Operações Aéreas, e suas companhias e batalhões operacionais.

Coronel Sarmento

O PATRONO

O cearense Joaquim Antonio de Moraes Sarmento “foi reconhecido patrono da Polícia Militar do Paraná por ter dedicado sua vida à corporação e pela luta na Campanha do Contestado, em 1912, na qual foi ferido no olho. A medalha ‘Coronel Sarmento’ é a maior honraria da Polícia Militar do Paraná e dada anualmente a militares e civis que se destacaram no trabalho em favor da segurança pública do estado”.

Capitão João Gualberto

O HERÓI

Finalizando o artigo vamos falar do coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho, que nasceu no dia 11 de outubro de 1874, na cidade do Recife, na Província de Pernambuco. No seu currículo constatamos que ele foi um capitão do exército com curso de Estado Maior em Engenharia, e bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas. João Gualberto, possuidor de grande carisma, viveu angariando uma legião de amigos e admiradores que o levaram a uma popularidade imensa em Curitiba, não só por suas qualidades pessoais como também por um desprendimento de coragem fora do comum. Vamos exemplificar por que ele era tão querido na capital paranaense. No dia 7 de setembro de 1910, o Tiro de Guerra Barão do Rio Branco, fundado e comandado por João Gualberto, venceu na cidade do Rio de Janeiro, um concurso militar nacional. O Paraná venceu todas as provas! O retorno do vitorioso capitão a Curitiba foi cercada de manifestações de carinho. Segundo os jornais da época, a população curitibana saiu às ruas explodindo de orgulho e contentamento.

Imagem do transporte do corpo do coronel João Gualberto de Irani a Palmas-PR. Acervo: Museu Histórico Professor José Alexandre Vieira. Palmas (PR)

De acordo com o livro “100 anos da guerra civil do Contestado, a maior guerra civil camponesa brasileira”, de Nilson César Fraga, geógrafo, professor doutor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), “entre os anos de 1912 e 1916, ocorreu a maior guerra civil brasileira, a Guerra do Contestado”. Um conflito armado onde participaram mais de 30 mil pessoas, numa área geopolítica de mais ou menos 48.000 km2. Existia nessa época uma disputa territorial entre o Paraná e Santa Catarina. Em defesa do território paranaense segue para os campos de Palmas o então capitão da arma de engenharia João Gualberto Gomes de Sá Filho”.

CAPITÃO SALOMÃO DA ROCHA

Euclides da Cunha, autor da obra prima e mais importante livro da literatura brasileira, “Os Sertões”, narrou a morte heróica do capitão Salomão da Rocha na “Guerra de Canudos”, a outra guerra camponesa que abalou politicamente o governo da República. “Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperado, o cavalo a galope, pela estrada — agora deserta — como se procurasse conter ainda, pessoalmente, a vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico. Os jagunços lançaram-se então sobre ela. Era o desfecho. O capitão Salomão da Rocha tinha apenas em torno meia dúzia de combatentes leais. Convergiram-lhe em cima os golpes; e ele tombou, retalhado a foiçadas, junto dos canhões que não abandonara. Consumava-se a catástrofe…”.

CAPITÃO JOÃO GUALBERTO

Como aconteceu em Canudos com o guerreiro sergipano capitão Salomão da Rocha, o bravo pernambucano capitão João Gualberto, foi abandonado pelo grosso da tropa no embate entre as forças do governo e os jagunços. Ficou só um pequeno grupo em torno do capitão. “A luta foi cruel, e a certa altura do combate, quando já não existia esperança e a pequena tropa caindo em mãos dos jagunços, o capitão João Gualberto num último esforço, já com as vestes rotas ensanguentadas, gritava: “Avançar! Fogo! Fogo!”. Nesta ocasião já estava mortalmente ferido a bala no tórax, defendia-se com o braço esquerdo, com um mosquetão na mão direita, batia-se como podia, com inigualável bravura, apenas protelando o momento derradeiro de sua morte. Ferido no peito e esgotado de forças com a perda de sangue, João Gualberto cai, já com os punhos cortados a facão, recebendo o golpe de misericórdia do jagunço José Fabrício Neves, que lhe produziu profundo ferimento no seu frontal. Morreram ao redor do capitão João Gualberto, nove bravos soldados paranaenses que tombaram ao lado do seu comandante”. O capitão João Gualberto, morreu em combate no dia 22 de outubro de 1912, durante a Batalha do Irani. Desapareceu João Gualberto, mas imprimiu-se uma página de honra na história do Paraná. Estava terminada a primeira parte dessa dolorosa tragédia que roubou ao Paraná e ao Brasil, a figura de um bravo “.

Reza a lenda que o funeral do capitão João Gualberto, foi o maior da história do Paraná.