Diretoria da Associação Cultural Povos da Amazônia (Movimento Amazônia Independente) no Teatro da Paz, em Belém, com a bandeira amazônida .Imagem: Movimento Amazônia Independente/Divulgação

Daniel Lisboa – Colaboração para o TAB

Desmatamento recorde na Amazônia. Mais de 1500 toneladas de óleo espalhadas por ao menos 409 localidades nordestinas. O ano de 2019 foi complicado no Brasil, mas as duas regiões mais pobres do país certamente têm mais motivos para reclamar.

Historicamente tratadas pelo governo federal com descaso, ou vistas simplesmente como regiões onde o “progresso” tarda a chegar, o Norte e o Nordeste também têm seus movimentos separatistas ou de autonomia.

Movimentos semelhantes no Sul do país ou em São Paulo contam com algum nível de compreensão e espaço na mídia, embora não sejam levados a sério. É estapafúrdio, pensam alguns, mas compreensível, que regiões mais ricas não queiram “carregar o Brasil nas costas”. Pois o tratamento explicitamente danoso do atual governo para com as mazelas que atingem o Norte e o Nordeste levanta a questão: não são eles os que têm motivo de sobra para pular fora? Amazônia independente Fundada em janeiro de 2019, a Associação Cultural Povos da Amazônia é, segundo seu site, “uma organização popular suprapartidária, e independente, que pretende promover e integrar a cultura amazônida, reforçando a identidade cultural específica dentro do estado nacional brasileiro”. O manifesto segue citando a “humanização da Amazônia” e a “visibilidade para o povo amazônida e também para os povos indígenas.

O professor e historiador Julian Axel, secretário-geral do movimento, explica ao TAB que a ideia é fundar uma “República dos povos da Amazônia”. Mas pede cuidado com a palavra “separatista”, por considerá-la pejorativa. “Esta (a independência) não é nossa finalidade agora. Pretendemos empreender um projeto de descolonização cultural a médio prazo.” Para ele, a região amazônica nunca esteve realmente integrada ao resto do país. Tanto que, diz Axel, até 1823 as províncias do Brasil e do Grão-Pará eram separadas. “A região foi anexada um ano após a independência do Brasil, e teve uma colonização diferente, com outra dinâmica.

Investimentos beneficiam outras regiões

“Até recebemos um pouco mais de atenção nas últimas décadas. A questão é como isso acontece”, diz o estudioso. “São projetos de interesse nacional que não necessariamente beneficiam a região. A construção da hidrelétrica em Porto Velho (RO), por exemplo, destruiu o cartão-postal da cidade para produzir energia elétrica para o Sudeste.” Para Axel, o governo de Jair Bolsonaro piora e reforça esse histórico. “Há uma negação de várias questões: científica, ambiental, institucional e ética”, afirma o historiador.

Nordeste independente

Talvez nunca na história recente uma região antagonizou tanto o mandatário do momento quanto o Nordeste em relação a Jair Bolsonaro. Fernando Haddad (PT) venceu em todos os seus estados no segundo turno da última eleição, e a postura do presidente não tem aumentado a simpatia local por ele.