Fernando Brito – Tijolaço

Por vezes custo a entender como gente que vive a política há tempos e forma no campo progressista  não percebe como os conselhos que a direita dá, pela mídia, são exatamente aqueles que não devemos seguir.

Agora, voltam com o coro de que “é preciso substituir Lula imediatamente”, e a furiosa Raquel Dodge ameaça até tirar os recursos do Fundo Eleitoral destinados ao PT.

Igual, fazem os comentaristas da imprensa, dando conta de uma suposta insatisfação de petistas com a “demora”, porque “não vai dar tempo” de transferir os votos para Fernando Haddad.

Ah,como é atual a fábula da raposa que elogiava o canto da gralha para que esta largasse o queijo!

Será que não vê que estão loucos para evitar o vexame – mais que o risco – de ter de fazer aprovar no STF a monstruosidade da negativa do registro de Lula?

Será que não vêem como estão ansiosos para dizer que “Lula desistiu”, que “jogou a toalha”, que “abriu mão” de uma candidatura e de uma missão que, a todo custo e com todas as violências, lhe tentam tirar das mãos, até com a prisão, o silêncio, a segregação e contra uma ordem da ONU?

Lula não desistiu, não desiste e não desistirá: será impedido pela violência e diante do povo brasileiro.

Não é um condenado que se ajoelhará pedindo clemência e, com isso, destruindo a figura gigantesca que o povo brasileiro ergueu para representar sua vontade.

Não é teimosia, muito menos é ambição. Se fosse, teria sido candidato em 2014.

A desistência de Lula é que, sim, seria um ato de vacilação que desanimaria as grandes maiorias que se formam em sua defesa e prejudicaria, imensamente, a candidatura Haddad.

Não só será o sinal para que a mídia o ataque furiosamente – e já há ensaios disso – como para que o eleitorado do Lula que “já não é candidato” se disperse por outros nomes.

Numa batalha, o general não baixa a espada se quer que suas tropas lutem.

Imaginem se Brizola, diante da ameaça – e real – de que bombardeassem o Palácio Piratini, tivesse concordado em evacuar a trincheira da legalidade diante da tentativa de golpe de 1961! Iam querer que a multidão permacesse lá, sem arredar pé?

Há risco? Há.

Mas o maior dos riscos é nos dispersarmos, nos tornarmos cúmplices, pela rendição, do golpismo evidente que tomou conta deste país.

As regras do Moro, dos desembargadores, dos ridículos ministros que reformam e descumprem a lei para evitar que o povo mostre e imponha sua vontade só se transformarão em verdade, como na Inquisição medieval, proclamando que a Terra é imóvel e o centro do universo quando abjuramos da razão e cedemos à praticidade do medo.

E o milagre de um povo que fez sua mente resistir a anos de mídia, de calúnias, de mistificação, de golpe, de tirania judicial será desfeito justamente pelo mártir agora genuflexo a seus algozes.