Sou bugre como o Luís Gama, quem é, não nega chama

Ainda que em meu nome o Henrique o inglês proclame,

morei nos Aflitos, e a fumaça nos unia nas choupanas!

E quem não sabia que era um bugre, só pelo perfume?

A fina dama nos dizia: o cheiro de vocês não nos engana!

(Pois que minha avó era Pool, vinda da Inglaterra:

povo estranho que saqueia tudo por onde passa!)

As brancas que não se banhavam no brejo do Feliciano,

As alemãs e as eslavas que iam à Igreja Presbiteriana

Todas elas diziam: o cheiro de fumaça não nos engana!

A gente podia colocar roupa de bacana, sapato Vulcabrás,

Para passear na Avenida São João nos finais de semana,

Ir ao Cine São Luiz com um pé atrás, disfarçado de cigano,

mas elas sempre diziam: o cheiro de fumaça não nos engana!

Até comprei um perfume, tal de Van Ess, e derrubei um frasco

Garrei uma polaca e levei lá pros fundos do potreiro do Juarez

Qual não foi minha surpresa depois de estar na ponta dos cascos?

Disse meio com asco: você é bugre! Conheço o cheiro de fumaça!

Hoje com ironia, depois que estou todo aprumado pro baile,

encharcado de perfume francês, chego perto do fogão à lenha,

deixo que a lembrança entre lá no mais profundo da alma gasta

Pois a história não há que se desfaça, a raça a que pertencemos…

Sei que a vida passa, muita gente se engana, disto não se reclama,

mas quando amamos de verdade o que somos e de onde viemos,

dizemos com gana: não se engane, somos bugres, feitos de fumaça!

 

Marcos Guimarães