Conselheiro do Athletico fala sobre o clube, dirigentes e bastidores da construção da Arena

 

O professor Paulo Osni Wendt é historiador, ex-diretor do Colégio Estadual do Paraná, curitibano (filho e neto de curitibanos), atleticano desde a infância, seguindo os passos do pai, Paulo Wendt, também atleticano sincero e apaixonado.

Nesta entrevista ele conta sobre sua infância na baixada, assistindo aos jogos do Clube Athlético Paranaense em um tempo em que as arquibancadas eram de madeira e concreto, “e os degraus com tijolos à vista”. Conselheiro do Athlético por várias gestões, recentemente publicou um livro revelando os nomes dos primeiros associados do clube.

Para compreender a trajetória de Paulo Osni Wendt pela história atleticana, leia a seguir a entrevista do mês, onde ele fala sobre a construção da Arena atleticana e a verdadeira face do dirigente Mario Celso Petraglia.

 

Como foi a sua infância no Athlético?

Prof. Paulo – Eu nasci na avenida Sete de Setembro, esquina com a rua Lamenha Lins, e vinha com meu pai assistir aos jogos do Athlético a partir dos 3 anos de idade, puxado pela mão, até o Estádio Joaquim Américo. Naquela época Curitiba era uma cidade ainda pequena, e como morávamos por perto, íamos à pé aos jogos do Atlético todos os domingos, e as vezes aos sábados.

Em que ano?

Prof. Paulo – Em 1947. Nessa época minha família veio morar na rua Cinco de Maio, hoje rua Brasílio Itiberê. Meu pai era sócio do Atlético, associado número 1178, mas eu não me conformava de não ter a carteira de sócio. Um dia eu resolvi me associar, e estava na casa da minha vó. Meus pais estavam viajando, pedi dinheiro à minha avó que primeiro achou um absurdo, mas depois concordou. Com o dinheiro fui ao clube, tendo sido admitido no dia 1° de julho de 1954, e desde então nunca mais deixei de pagar as mensalidades. Eu tinha de 13 para 14 anos, e eu completei 14 anos em 16 de julho. Na época o clube era presidido por Laurival Camargo Melo e o tesoureiro era Angelo Porto Martineli, este último um dos meus proponentes a se associar ao Athlético.

Como era a vida nas imediações da baixada atleticana?

Prof. Paulo – Eu me lembro de muitos jogos do Atlético, por exemplo, peguei bola atrás do gol, no bosque, de goleiros famosos como o Caju, Laio, do Amador, Adolar Zandoná, Ivan Pereira, entre outros. O fenomenal goleiro Caju morava aqui na rua Coronel Dulcídio, era uma pessoa humilde, amigo de todos. E nas minhas idas e vindas para assistir aos jogos do Atlético, fiz amizade com o Caju, com o Alberto que trabalhava cuidando do campo de futebol, um trabalho muito valorizado e admirado na época. Os garotos do bairro estudavam ou trabalhavam, e sempre retornavam ao campo para assistir treinos e jogos. Foi um tempo maravilhoso, de amizades sinceras, de paixão pelo futebol.

Como era a relação dos moradores da região com o Clube Athlético?

Prof. Paulo – Aqui na região havia um grande número de torcedores, na região da atual rua Brasílio Itibere, da Coronel Dulcídio e demais ruas da região. Entre os moradores da região, ao menos 60% eram torcedores atleticanos. Tinha também alguns torcedores do Água Verde, do Ferroviário, mas os times com maior número de torcedores eram o Atlético Paranaense, o Coritiba e o Ferroviário. O Esporte Clube Água Verde se uniu ao Savóia (outro time do bairro Água Verde) em 1926. No ano de 1971 passou a se chamar Esporte Clube Pinheiros e depois se uniu ao Colorado e se transformou no Paraná Clube. A torcida do Savóia era formada pelos italianos mais tradicionalistas do bairro.

Como foi a evolução do campo de futebol para o estádio e depois Arena?

Prof. Paulo – O Atlético sempre esteve onde se encontra atualmente. No início, modestamente, tinha um estádio com arquibancada de concreto, eu tenho foto dessa época. Vim ao estádio no primeiro dia da demolição, vi as primeiras derrubadas, era uma coisa modesta. Isso aí foi em 1992 que derrubaram a arquibancada antiga de 1940, e a nova foi feita na década de 40.

Quando Milani inventou de construir o Pinheirão, ele tirou o ímpeto do Atlético de fazer o seu estádio, em melhorar o estádio. Todo mundo se agarrou a essa ideia do Pinheirão, menos o Coritiba. O Coritiba era contra, conseguiu melhorar o seu estádio, mas os outros clubes tentaram de tudo para viabilizar o Pinheirão, e nós atleticanos fomos  para o Pinheirão, a convite do Onaireves Rolim de Moura, ex-presidente da Federação Paranaense de Futebol, mas ele nos jogou numa fria porque o Pinheirão não é um estádio para a torcida do Atlético que estava acostumada a jogar aqui, na região. Ir para lá jogar a noite, com chuva, no barro, foi um desastre. Terminava o jogo e as pessoas atolavam no barro para vir embora. Foi quando o Farinhaque, então presidente do Athlético, lançou uma campanha para retornar ao estádio na baixada, com o apoio do então governador Ney Braga.

O Athlético voltou para a baixada em 1994, venceu o jogo inaugural por 2 a 1 contra o Flamengo.

Ex presidente Valmor Zimermann

Fale sobre a fase do presidente Valmor Zimermann?

Prof. Paulo – Em 1972, o Valmor Zimermann organizou a Retaguarda Atleticana durante a presidência do Lauro Rego Barros, contando com o Mario Celso Petraglia, Salmir Lobato Machado, Celso Gusso, Paulo Bakstein, Ítalo Conti Junior, Onaireves Moura, Valdo Zanetti, entre outros organizadores e o Salmir veio até a minha casa para me convidar a participar dessa organização que visava fortalecer economicamente o Athlético. O Valmor Zimermann contou em uma entrevista ao Jornal Água Verde que na época o clube não tinha dinheiro nem para pagar as pessoas que lavavam os uniformes dos jogadores. Então eles conseguiram levantar uma receita considerável entre empresários e torcedores atleticanos. Eles assumiram o clube e as coisas começaram a melhorar. Por volta de 1972, 1973, o Atlético foi vice campeão duas vezes, ficou em terceiro lugar, e nessa parte de 1972, surgiu o Petraglia, que já estava junto com a Retaguarda Atleticana. Mas desde criança, quando morou na vizinhança, o Petraglia frequentava o clube, jogava bola com o Cleon Padilha e outros atleticanos. Em 1994 o Farinhaque trouxe os atleticanos de volta para a baixada e em 1995 o Mario Celso Petraglia deu novos rumos para o clube.

Mário Celso Petraglia

Como foi o trabalho do Mario Celso Petraglia?

Prof. Paulo – Eu sempre vi o Mario Celso Petraglia ajudando o clube em todos os setores, em todos os momentos da vida do Athlético.

Lembro que fiz uma campanha para comprar postes para iluminar o estádio. Nós não tivemos dinheiro para dar continuidade ao projeto de iluminação, e o Moura chegou, pediu pediu nosso apoio e as obras seguiram. Muita gente pensa que fui eu que comprei os postes na época, mas não! Nós demos início, fomos o pioneiro, mas depois veio o Moura e deu continuidade ao nosso trabalho até a inauguração em 19.11.1980. Com o dinheiro que arrecadamos compramos 2 postes de iluminação, cujas nota fiscal está comigo até hoje. Nós demos início, mas depois veio o Moura. Quem finalizou a iluminação e reformou o estádio foi o Petraglia.

A partir do trabalho dele é que o clube cresceu. Na época ficamos todos muito felizes com o estádio novo, que foi construído graças ao trabalho do Petraglia. Ele sempre gostou da parte administrativa e patrimonial, e como administrador ele é inigualável, insuperável, sem comparação. Então ele começou a fazer o primeiro estádio, bem mais modesto do que é hoje, porque ele queria fazer para a Copa. Era para sair a Copa de 2002 no Brasil, não saiu. Era para sair em 2006, 2010 e assim por diante. Quando chegou a 2014, o Petraglia arregaçou as mangas e foi à luta, teve que enfrentar a todos: imprensa, autoridades, dirigentes de outros clubes, servidores públicos etc. Até hoje ainda deixaram problemas para ele, pela traição da tríplice aliança, que era o Atlético, a prefeitura e o governo do Estado. No entanto, houve ali um rompimento das duas partes. O Athlético estava cumprindo a parte dele, as outras duas partes não cumpriram. Mas mesmo assim, o Petraglia conseguiu fazer o estádio dentro do prazo, o que ninguém acreditava que fosse possível. Houve atrasos nas desapropriações das casas no entorno. Até greve de trabalhadores ele enfrentou. Na época os governantes disseram para ele: “Faça, faça”, porque o importante era fazer a Copa em Curitiba e trazer milhões e milhões para obras em toda a cidade. O governo queria aparecer, e depois que o Petraglia assumiu a obra, abandonaram a situação, começaram a por empecilhos. Durante a Copa bombeiros e fiscais não reclamaram disso ou daquilo; mas depois da Copa começaram a encontrar uma porção de defeitos, que o Petraglia teve que ir arrumando tudo gradativamente.

Vamos lembrar o negócio da grama sintética. Ele é pioneiro, foi pioneiro em tudo, iluminação, tipo de iluminação, arquitetura, teto retrátil etc. Nós atleticanos começamos no passado de forma modesta, mas o Mario Celso Petraglia chegou com projetos grandiosos e futuristas.

Arena do Athlético. O estádio mais moderno da América do Sul.

Nesse tempo que conheço o Petraglia, nunca discuti futebol com ele, e nas poucas vezes que conversamos foi sobre o clube, porque eu sou um torcedor e ele é um administrador. Ele entende dos temas mais distintos e difíceis do clube, de patrimônio, investimentos etc. E penso que igual a ele, infelizmente, não vai aparecer ninguém que iguale ou supere sua capacidade em administrar um clube de futebol. Minha grande preocupação hoje é se um dia o Mario Celso Petraglia deixar o Clube Athlético Paranaense, não há ninguém com tamanha capacidade que possa substitui-lo. É difícil aceitar isso, somente quem esteve dentro do clube, como eu estive em vários conselhos de diretoria, eu sei a dificuldade, a inveja de alguns, a incompetência de outros.

Um exemplo de pessoas negativas é a imprensa paranaense, com raras exceções, ela é contra o Atlético Paranaense. Essa imprensa está acostumada a guerrear com o Atlético há algumas décadas. Tem jornalista, como o Mafuz – que se diz atleticano -, que não passa um dia sem atacar ou criticar o Petraglia. Ora, isso é um absurdo. Na minha opinião o Mario Celso Petraglia é o melhor dirigente de clube de futebol do Brasil. Não há ninguém que rivalize com ele em capacidade administrativa. Nós temos hoje a Arena atleticana e o CT do Caju, o estádio e o centro de treinamento mais modernos da América Latina, graças ao trabalho do Petraglia. O Athletico hoje é considerado um dos melhores não apenas do Brasil, mas do mundo, e prova disso é que vai disputar competições internacionais nos próximos meses. Essa realização é dele.

Outra coisa importante, o Petraglia nunca vendeu “papel podre” no Athlético. Houve um tempo em que alguns clubes, incluindo o Athletico, vendiam papéis podres, de empreendimentos que existiram apenas no papel, e que jamais foram resgatados pelos compradores. Digo isso porque eu tenho alguns desses papéis. Tenho papel podre de clube que desapareceu de Curitiba. Antigamente eu era sócio dos quatro clubes em Curitiba, embora sendo atleticano, apenas para garantir presença nos clássicos; eu ia em todos os jogos. Tinha aquelas filas enormes, e então para não enfrentar filas, eu era sócio, senão tinha que enfrentar filas imensas.

Voltando ao assunto do Mário Celso Petraglia, espero que ele seja reeleito, mais um período, nas eleições deste final de ano. Todos sabem que construir é muito difícil, mas destruir, é muito fácil. Tem muita gente de olho no patrimônio milionário do Clube Athletico Paranaense. Precisamos preservar aquilo que conquistamos com muito trabalho, suor e lágrimas.

 

Fale sobre a situação do Athlético hoje no futebol mundial?

Prof. Paulo – O Athlético, despontou no cenário internacional e não é de hoje. Despontou a partir do título de 2001. O clube não regrediu, perdemos o Bicampeonato nacional, por uma questão de falha técnica; não foi o Atlético que perdeu o título.

Depois tivemos o problema da disputa com o São Paulo, alguém que nos traía, alguém conseguiu lá na Sul Americana tirar o jogo que era nosso da Arena, mesmo com arquibancada armada, que era algo corriqueiro em todo lugar, em rodeios, em jogos, e porque no Atlético não podia? Não podia porque havia interesse particular do São Paulo, mas o Atlético teve Copa do Brasil também. No Flamengo, no Rio, lá as coisas também ficaram duvidosas, senão nós teríamos sido campeões da copa do Brasil, e como disse na Sul Americana, o que o Petraglia prometeu até hoje, ele vem cumprindo.

Hoje o Athlético é destaque na Libertadores 2019, está entre os melhores do continente, está na série A, enquanto os demais times do Paraná estão na segunda divisão.

O título mundial, que todo atleticano quer, não é assim tão fácil. Pretendemos conquistar o título mundial, estamos construindo este caminho. É difícil, mas não é impossível, considerando os times que o Brasil tem hoje, da para chegar, acredito que da para chegar. É uma questão de tempo, e o Athletico está evoluindo a cada ano que passa.