(*) Luiz Claudio Romanelli

As exportações de carne brasileira desabaram. Dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) apontam que, antes da divulgação da Operação Carne Fraca, o valor médio diário de venda do alimento para o exterior era de US$ 63 milhões. Na terça-feira da semana passada, totalizaram US$ 74 mil, o que representa uma queda de 99,8%. Desde lá, já foram U$ 130 milhões de prejuízo.

Mais de 40 países anunciaram restrições à carne brasileira desde que a Polícia Federal realizou a operação. Hong Kong, além de suspender a compra, exigiu a retirada do produto do mercado local. Outros países como Japão, China e África do Sul suspenderam parcialmente as importações. Os países que possuem maior peso nas exportações de carnes do Brasil são China, União Europeia e Hong Kong.

Frigoríficos foram fechados, funcionários começaram a ser demitidos. Somente em Colombo, onde fecharam dois frigoríficos, 280 funcionários perderam seus empregos. A BRF deu férias coletivas para 1,7 mil funcionários da unidade de produção de suínos da cidade de Toledo e suspendeu a produção em 33 de suas 36 unidades.

No Paraná, líder nacional na produção e exportação da carne de frango, terceiro maior criador de suínos do país e nono na produção de bovinos, as consequências podem ser desastrosas.

Tudo isso aconteceu no prazo de apenas uma semana, depois que a Polícia Federal vendeu a versão de que os frigoríficos brasileiros lesam os consumidores e vendem ao mercado interno e ao mundo carne contaminada e estragada.

Segundo a desastrada coletiva conduzida pelo delegado federal, estamos comendo e exportando carne podre. Ele não apresentou um único laudo técnico comprovando suas acusações de que a carne vendida e exportada por 21 frigoríficos, sendo 19 do Paraná, é imprópria para consumo. Note-se que ao todo o Brasil tem 4.894 plantas industriais no setor da carne. Já ficou comprovado que muitas das conclusões apresentadas à imprensa como “provas” da contaminação da carne são fruto de interpretação equivocada – como os embutidos com papelão e a adição na carne de ácido ascórbico, a popular vitamina C.

Foram tantas trapalhadas que a Operação, em vez de Carne Fraca, deveria se chamar Operação Papelão. No espetáculo armado, ficou claro que o delegado desviou-se do foco central da investigação, que era a corrupção de servidores públicos por empresas privadas para facilitar o trâmite burocrático, para sem base técnica, condenar a qualidade da carne e todo o sistema de inspeção sanitário brasileiro.

Óbvio que há empresários desonestos e fiscais corruptos, que agem sob a proteção de políticos espertos, mas daí a condenar toda uma cadeia produtiva importantíssima para o país, vai uma longa distância.

Houve um gravíssimo erro de comunicação da Polícia Federal, com a participação e colaboração da imprensa – que comprou a versão do delegado sem questionamentos ou uma mínima checagem dos fatos. A única reportagem com checagem sobre os fatos, vejam só, foi da BBC de Londres, que “descobriu” a questão do ácido ascórbico.

O resultado dessa irresponsabilidade já está sendo sentido, com mais desemprego, quebra brutal nas exportações e embargos comerciais. Um estrago brutal e sem precedentes. Um papelão internacional.

O Brasil tem que parar de dar tiro no pé. Nós já perdemos a indústria da engenharia pesada, a cadeia produtiva do óleo do gás praticamente não produz mais nada no país, e o Brasil está desestruturando a indústria de base. Nós estamos vivendo no país um estado policialesco, em que primeiro se acusa, se conduz coercitivamente, para depois provar algo.

Hoje foi o setor da carne. Amanhã vai ser o soja. Depois são as cooperativas e tudo aquilo que produz e que é competitivo. A quem interessa esse ataque e desmonte da indústria nacional, sob o mantra de combate a corrupção?

(*) Luiz Claudio Romanelli é advogado, especialista em gestão urbana e deputado pelo PSB do Paraná.