Professor universitário Eduardo Nascimento, ex-secretário de Turismo de Antonina nos anos de 2005 e 2017.

Ex-secretário de Turismo de Antonina fala sobre o nosso potencial turístico desperdiçado

Atividade comercial sazonal, o turismo merece atenção especial dos governantes e administradores para melhorar a qualidade de vida das populações litorâneas. Entretanto, não é o que vem acontecendo nos últimos tempos em nosso litoral: praias poluídas e trapiches abandonados não são atrativos para turistas e populações do nosso litoral.

Para falar sobre o turismo no litoral entrevistamos o professor universitário Eduardo Nascimento, mais conhecido em Antonina como Eduardo Bó, ex-secretário de Turismo daquela cidade nos anos de 2005 e 2017. Idealizador – ao lado da professora Márcia Fontoura – do tradicional Festival de Inverno de Antonina, que neste ano completa 30 anos.

Ex-morador do bairro Água Verde, em Curitiba, é autor de sete livros e produz um blog na cidade de Antonina.

O professor Eduardo reside na casa em que nasceu, construída pelos bisavós, no centro da cidade de Antonina.

Qual a situação do turismo no litoral do Paraná hoje?

Eduardo – Eu acho que nosso litoral está sempre além do seu potencial; nós temos um turismo de areia, de praia, turismo histórico ecológico, que estão em nossas cidades históricas, Antonina, Morretes e Guaraqueçaba. Morretes é a cidade com maior movimentação, turismo de visitantes, e não é explorado. Os governos não investem principalmente em infraestrutura mínima. Sem esse apoio do governo, e principalmente sem apoio na área de incentivo a instalação de empresas, que vão gerar serviços e geração de renda, dificilmente nós teremos um desenvolvimento sustentável na área do turismo no litoral. Potencial turístico nós temos, tanto quanto nossos estados irmãos, Santa Catarina e São Paulo, mas falta ainda que o governo decida, não só o governo estadual, mas principalmente governo federal e as prefeituras. Todos os prefeitos começam os mandatos com bons discursos, mas do discurso à prática, tem uma distância, um vácuo enorme.

 

Santa Catarina é tido como um estado que valoriza o turismo, tanto que o número de paranaenses nas praias de Santa Catarina  aumenta anualmente. A que se deve essa migração do turista paranaense?

Eduardo – Eu não sou um analista profundo na área de turismo, mas sou turista, eu viajo muito, e o turista procura realmente belas praias, boas paisagens, bons serviços, boas estradas.

As cidades do interior, das serras catarinenses, são encantadoras, desde o receptivo ao acolhimento visual, tem um portal, uma bela recepção. O canteiro de flores; uma coisa que não aprendemos a fazer ainda no Paraná é plantar flores. É um grande atrativo, e bons preços, bons serviços. Então o turista procura, uma boa hospedagem, um bom atrativo, alimentação, e bons produtos de compra. Para fortalecer o comércio e o turismo de uma cidade ou região, é necessário disponibilizar bons serviços, hotéis, restaurantes, artesanatos, padaria, cafés, borracharia, posto de combustíveis, serviços públicos de água e esgoto, saúde pública. O turista precisa ter um bom atendimento na saúde. Nós somos ainda carentes, deficientes, nesses serviços. Precisamos melhorar. Potencial nossas cidades tem, mas precisamos de duas coisas fundamentais: vontade política e uma dedicação maior por parte do empresariado.

 

Voltando a comparação entre Paraná e Santa Catarina, o pedágio é abusivo no Paraná. Você acha que tem algum impacto no turismo?

Eduardo – Tem e não tem. Acho que é uma faca de dois gumes; se você quer ir a um destino, exemplo, Fernando de Noronha, é realmente a classe média que vai a Fernando de Noronha, e ela não está preocupada se vai gastar 1.000 reais por dia para ir para a ilha, pois ele sabe que lá vai encontrar o melhor possível, então o turista de classe média vai.  O turista não viaja todos os dias, ele não está preocupado com uma taxa a mais. Não é o custo de serviço que vai impedir maior circulação de pessoas; claro que vai interferir, mas se você fizer um levantamento mais aprofundado, com metodologia própria, você vai ver que pedágio é uma despesa menor de cinco por cento do custo turismo.

 

O que fazer para melhorar o turismo no litoral do Paraná?

Eduardo – Primeiro, investimento do governo, principalmente porque temos dois problemas bem localizados em duas antigas cidades do litoral, Antonina e Paranaguá, onde nós temos um problema grave que se chama tratamento de esgoto. Temos duas grandes baías. A baía de Antonina que se agrega a Paranaguá, e todo resíduo de esgoto doméstico para uma fossa ou diretamente para a baía. Nós não temos tratamento de esgoto.

O nosso principal atrativo é o mar. Não pode ser litoral com água poluída, a nossa água precisa estar bem, não somente balneabilidade. Antonina não tem balneários, mas a água tem que estar saudável, para uso de outros atrativos, como esporte náutico, pesca, vela, então as nossas baías precisam estar despoluídas, para que tenha uma área a mais que pode gerar renda e emprego. Isso é fundamental, a despoluição das baías e de algumas praias.

No ítem equipamentos também temos problemas, exemplos: Antonina tem um trapiche que é o único acesso ao mar, que é público, mas está em péssimas condições, a exemplo dos trapiches da Ilha do Mel. Eu sou frequentador a mais de 30 anos da Ilha do Mel, por sinal já fiz minha reserva para o Natal, estou indo para a ilha e os dois trapiches estão comprometidos, é um absurdo, principalmente porque a ilha é o maior atrativo do nosso litoral, recebe o maior número de turistas em nosso litoral. Turistas é aquele que vai e se hospeda, é menor que o turismo de visitantes, é um turismo gastronômico. A ilha é nosso maior atrativo, e não oferecer serviços de qualidade em termos de embarcação, de embarque e desembarque, é inadmissível, e além de tudo a Ilha do Mel pertence ao município mais rico do litoral, que é Paranaguá. Falta esse comprometimento dos governos também, uma cobrança efetiva da população. A população fica esperando que os governantes façam sua parte. Eles fazem campanha, mas na hora de fazer nós ficamos esperando.