A história secreta do maior roubo de dinheiro público na história do Paraná

Nos últimos dias tem sido grande o número de postagens nas redes sociais sobre o Caso Banestado. O escândalo Banestado foi a maior roubalheira da história do Brasil, maior até que o “Petrolão”, o roubo na Petrobras que foi manchete dos veículos de imprensa em todo o país. Mesmo após ter sido saneado, em apenas alguns meses o banco dos paranaenses apresentou prejuízo (?) de R$ 2,8 milhões em 1998. E ao final restou ao povo do Paraná pagar R$ 19 bilhões pela farra com o dinheiro público.
Algumas lideranças políticas estão usando as redes sociais para tratar do assunto, revelando o “esqueleto no armário” chamado Banestado. Mas o que os meios de comunicação independentes estão esquecendo é de entrevistar o personagem de maior destaque na apuração desse escândalo, um político experiente, o então deputado estadual por seis mandatos e ex-vereador Neivo Beraldin, que presidiu a CPI do Banestado – uma das únicas CPIs a não acabar em pizza, ao menos na fase de investigação. Na fase de condenação foi outra história.
Leia a seguir entrevista exclusiva com o ex-vereador e ex-deputado Neivo Beraldin. Primeira parte. A segunda parte desta entrevista será publicada na próxima edição.
Como foi a criação e a trajetória da CPI do Banestado na Assembleia Legislativa do Paraná?
Neivo Beraldin – Eu tinha uma preocupação muito grande com o Banestado, desde quando me elegi deputado estadual pela primeira vez, em 1986 na Assembleia Legislativa, quando Jaime Lerner assumiu o cargo de Governador. Fiquei mais preocupado ainda porque as notícias começaram a vir a público em relação aos desmandos no Banestado. Diretores que não tinham as credenciais necessárias eram nomeados, e começou a gerar preocupação até que em 1995, o então governador Jaime Lerner fez uma carta confidencial ao Banco Central dizendo que o Banestado tinha saúde financeira boa, e saldo positivo em caixa. Era um banco com mais de 1500 imóveis, banco com mais de setenta anos com marca própria e tradição, ou seja, um banco muito importante para a economia do estado do Paraná.
Na época eu fazia parte da minoria na Assembleia, pois via de regra os governadores constituem maioria rapidamente na Assembleia Legislativa. O povo elege o deputado para que o represente, mas a maioria acaba se acertando com governo, trazendo prejuízo para a população. Ele se elege com o voto do povo, depois se torna voto fiel do governador. É uma prática em termos bem acentuada no Paraná e no Brasil.
O governador Jaime Lerner defendeu as administrações do Banestado junto ao Banco Central, mas posteriormente acionou o Banco Central afirmando que o banco tinha que encerrar suas atividades, porque o banco tinha redesconte e o prejuízo em 1998 foi de 2 bilhões e 800 milhões de reais. O banco encerrou as atividades e o governador Jaime Lerner foi ao presidente Fernando Henrique Cardoso e contraiu um empréstimo de 5,6 bilhões de reais. Saneou o prejuízo do banco e socializou a conta (o prejuízo) para o povo pagar em trinta anos. Começou essa conta a ser paga pelo povo do Paraná, pelos mais humildes, porque o rico não precisa de governo, não precisa de creche nem posto de saúde, nem escola ou segurança.
Começamos então a pagar essa conta no ano 2000. Inicialmente foi 52 milhões de dólares – na época o dólar era um por um – por mês, até março de 2029. Quer dizer, já pagamos em torno de 800 milhões por ano, sendo que hoje a prestação mensal é 70 ou 80 milhões. Isso já vem descontado no repasse do governo federal ao Estado, conforme contrato que o governador Jaime Lerner fez com o Banco Central. O tempo passou, mudou o governo, veio o governo Roberto Requião em 2002, e quando o Requião se elegeu governador eu levei até a casa dele algumas auditorias que eu tinha feito na Sanepar, na Copel e no Detran. Eu tinha um mandato parlamentar muito voltado para as questões de orçamento público, as questões de andamento das empresas, economia mista, e era muito dedicado a CPIs, a CPI dos combustíveis, CPI do narcotráfico, das universidades, CPIs de várias frentes que tivemos enquanto presidi a Comissão de Controle da Assembleia, e também tinha um poder muito forte, contava com auxílio dos técnicos do Tribunal de Contas, enfim, fazia o trabalho de deputado, que é o de acompanhar e fiscalizar o orçamento público, o interesse da sociedade, do povo que me elegeu. Levei ao Requião, na casa dele, e ele disse que gostou muito. Encaminhou os relatórios à equipe que estava fazendo a transição de governo, que gostaram muito do meu trabalho, fez largos elogios em relação ao meu comportamento parlamentar. Eu não tinha sido eleito pelo partido dele, mas no dia seguinte, estrategicamente eu subi à tribuna e falei que agradecia muito os elogios do governador eleito, mas que tinha um sonho de verificar por que o Banestado deu um rombo na economia e por que o povo do Paraná estaria condenado a pagar uma dívida que não fez. No dia seguinte subi a tribuna e fiz também elogio ao governador empossado dizendo que eu contava com os deputados eleitos pelo seu partido para eu criar a CPI do Banestado. Desci da tribuna e colhi trinta e quatro assinaturas de deputados. Então usei a cabeça, porque dizem que toda CPI geralmente acaba em pizza. É preciso esclarecer alguns detalhes dessa trajetória e dessa CPI, por exemplo, quando eu colhi as 34 assinaturas, o passo seguinte seria os partidos indicarem seus membros, isso leva alguns dias e tal, e até que os partidos indicassem seus membros, minha equipe técnica estava elaborando um pré-relatório que seria deliberado na primeira sessão, para que eu pudesse ter o comando da CPI, afinal, eu queria desvendar uma história trágica na política do estado do Paraná, desvendar talvez o maior roubo do país. Foi uma verdadeira parceria pública privada e sobrou para o povo, por isso essa estratégia que utilizei. Fizemos uma primeira sessão onde todos os deputados tomaram posse e já fizemos a primeira reunião, e eu como presidente da CPI já eleito, proponente e presidente. Coloquei em discussão e votação as matérias que me dariam essa liberdade, mesmo se algum deputado abandonasse a CPI, faltasse às sessões, impedindo problemas de quórum na CPI, por questão de pressão política, pressão econômica, porque eu sabia que estava tratando com coisa muito forte. Nem todos que estavam eleitos para compor essa CPI sabiam do tamanho da bronca. Então eu deliberei a quebra do sigilo bancário e fiscal de vinte e nove empresas, deliberei a quebra do sigilo do Banco Central, do banco Itaú também, e deliberei a convocação de todos os ex-diretores do Banestado, todos os secretário de Estado, do governador, e de todas as autoridades que tivessem alguma relação com a movimentação e gestão do Banestado. Feito isso, quando a CPI sofreu uma pressão mais forte, onde havia um esvaziamento nas sessões, eu convocava secretário de Estado, e então tinha a CPI na mão. Seguimos encaminhando um oficio através do nosso departamento jurídico para o Banco Central pedindo acesso a tudo que dizia respeito às contas CC5, e que dizia respeito às auditorias internas e externas realizadas dentro do banco do Estado do Paraná, que estavam exatamente dentro do Banco Central. Então o Banco Central respondeu dizendo que não reconhecia os poderes da CPI estadual para quebra de sigilo do banco. Fui ao presidente de Tribunal de Justiça do Paraná, que naquela época era o Oto Luiz Sponholz, falei a ele: “presidente, temos uma relação muito grande aqui, e o trabalho será tão volumoso que se o senhor permitir, e não se ofender, eu vou me socorrer com o juiz federal que é responsável pelos crimes do sistema financeiro do Sul do Brasil”, que na época era Sérgio Moro. Com o sinal verde do presidente do TJPR marquei uma audiência com o então juiz Sérgio Moro, e fui lá e relatei para ele que eu tinha as intenções de fazer uma CPI limpa, eu tinha intenção de desvendar todos os casos, e que eu ia precisar da analise dele, no sentido de me dar amparo judicial para que eu pudesse entrar com minha equipe técnica dentro do Banco Central, dentro do Itaú e tudo mais. Ele falou assim: “Muito bem deputado, O senhor tem departamento jurídico?”. Respondi que tinha um bom departamento jurídico, então ele finalizou: “Faz o seguinte, o senhor represente, protocole aqui e eu vou analisar”.
Assim foi feito e dois dias depois nós protocolamos o requerimento da quebra do sigilo do Banco Central e outras necessidades, e em dois dias ele deliberou e determinou ao Banco Central que abrisse as portas para a CPI do Banestado, para nosso acesso às informações e análises necessárias, e ainda recomendou que fosse cedida uma sala com amplo espaço e com assessoria de funcionários do Banco Central para atender as nossas demandas. Eu tinha uma equipe técnica no meu gabinete que era de ótimos contadores, hardwares de auditores, jornalistas e advogados pós graduados. A equipe do meu gabinete era uma equipe forte. Então essa equipe se juntou à equipe do Banco Central, e aí convoquei dois técnicos do Tribunal de Contas, e convoquei dois do Ministério Público Estadual e enfim, abri a CPI de uma forma que não tinha quem questionasse sua legitimidade: se buscava um contrato de gestão dentro do banco, se encontrava falhas, elaborava as perguntas baseadas nos documentos que a equipe encontrava, e então convocava o envolvido, e eram dezenas ou centenas de documentos se contrapondo aos depoimentos, em relação a CC5. Eu conhecia já um trabalho, do então Procurador da República Celso Três, que há alguns anos estava tentando quebrar o sigilo das agências bancárias do Banestado de Foz do Iguaçu, e já haviam rumores fortes, e aí fomos buscar o fio da meada que foi o tal de Eraldo Ferreira, ex-gerente da agência em 1998, que era então funcionário da agência de câmbio do Banestado, que fez uma carta para o então vice presidente Valmor Picoli informando como o banco agia em relação as remessas de dinheiro brasileiro para o exterior. Em verdade o banco orientava as suas agencias, que eram em torno de quatrocentas, para remeter dinheiro para o exterior através das contas CC5 sem que constasse de forma online no Banco Central, que seria uma operação cabo, quer dizer, o sujeito pagava em real, e recebia em dólar, em Gran Caimann, em Nova Iorque, em outro país, em paraísos fiscais, e em várias operações, operações de remessa, exportação, quer dizer exportavam um milhão de dólares e aí constava que exportou 100 mil dólares, e 900 mil dólares ficavam lá fora. E quando voltava de lá eles utilizavam a nota de um bloco que era branca e a pink que era a segunda nota, e vinha com valor a menos. Então nós convocamos o Eraldo, que fez esse depoimento, e convocamos também os diretores do banco, e esclarecemos o máximo sobre as contas CC5, até que o Banco Central nos deu um CD com dados da remessa de dinheiro ao exterior via Banestado no montante de R$ 33 bilhões e R$ 600 milhões de dólares. Isto está no CD, 10 mil contas com nomes e valores, e foi tudo encaminhado para o Ministério Público Federal, para o juiz Sérgio Moro, Ministério Público Estadual e lá estava Dario Messer, “o doleiro dos doleiros”, lá estava o Mendonça, lá estava o Paulo Maluf, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, o Henrique Meireles que foi presidente do Banco Central na época. Todos estão no nosso relatório que foi encaminhado para o Ministério Público do Estado do Paraná. Informações sobre as contas CC5 encaminhadas detalhadamente com todos os modus operandi para remessa de dinheiro brasileiro para o exterior, e tudo foi entregue para a Justiça Federal, e o que eles fizeram não posso falar.
Agora, o fato concreto da instalação da CPI do Banestado, ela se deu baseada em uma remessa de dinheiro brasileiro via Banestado para o então doleiro Alberto Youssef em 1999. Ele era sócio da Jabur de Londrina, e tinha mais três empresas daqui, que por ordem do diretor do Banestado que era de Operações, que acumularam três diretorias, amigo do Jaime Lerner, Gabriel Pires inclusive foi condenado, e cumpriu pena, e esse fato concreto fez com que nesse fato de dinheiro brasileiro para o exterior mesmo após o banco ter encerrado as suas atividades, virou notícia para a imprensa nacional, e o banco do Estado tinha sido multado em 175 mil dólares. O fato concreto foi esse, e então nós encaminhamos a CC5 para o juiz Sérgio Moro, para o Ministério Público e companhia, e Polícia Federal que também estava presente na CPI.
Continua na próxima edição.