Na medida em que foram derrotados na Síria, diversos grupos terroristas foram transportados para a Líbia. O líder do Estado Islâmico (Daesh) chegou a anunciar anos atrás que os terroristas dominariam a Líbia em poucos meses, sob os escombros das potências ocidentais que criaram a guerra de ocupação de 2011.

Os grupos terroristas ligados à Al Qaeda e depois ao Estado islâmico (Daesh) agiram em Bengazi sem serem incomodados pelas forças estrangeiras ligadas à ONU e OTAN, mas a partir do assassinato de Christopher Stevens, o embaixador americano, em setembro de 2012, a guerra chegou aos terroristas em Benghazi. Até hoje a morte do embaixador permanece envolta em mistério, a não ser pelo fato de que alguns terroristas na época declararem em alto e bom som nas barracas de kebab (sanduíche árabe) de Bengazi que “Stevens foi morto porque não trouxe o dinheiro combinado”, ou seja, o dinheiro dos terroristas do Daesh aprovado por Washington desapareceu no caminho, como sempre acontece nas guerras que envolvem mercenários.

Em 2013 as milícias islâmicas, apoiadas pelo Qatar e pela Turquia, tomaram o poder em Trípoli, a 1.000 quilômetros de distância, transformando o país em zona de guerra nas mãos das potências regionais. No ocidente, os líbios ligados ao marechal Khalifa Haftar controlam um vasto território e, sobretudo, as três principais instituições do país: o banco central de Tripoli, a companhia petrolífera nacional e os três fundos soberanos. Para combatê-los, um soldado apoiado pelos egípcios lançou a Operação Karama (Dignidade), mas fracassou.

O marechal Khalifa Haftar veio de uma tribo influente no leste da Líbia, os Ferjani, e começou sua carreira como oficial do exército de Khadafi. Em 1987, ele foi preso por forças chadianas em N’Djamena, com seus homens. Após ser libertado, por discordar da política kadafista, transfere residência para o estado da Virgínia, nos EUA, onde residiu por vinte anos. No início da guerra de 2011 ele retorna à Líbia e refaz seus contatos com militares do Exército líbio, reorganizando o Exército Nacional Líbio – LNA. Nessa época os terroristas da Irmanda Muçulmana, expulsos pelo Egito, estavam dominando a fronteira líbia no ocidente. Haftar expulsou a Irmandade Muçulmana em 2013 e passou a ter a simpatia do presidente do Egit, o general Sissi. Em 2014 o LNA travou uma guerra em Benghazi contra o grupo Ansar al-Sharia e outras milícias islâmicas ligadas à Al Qaeda e ao Daesh (Estado Islâmico). Todos esses grupos com diferentes tendências ideológicas servem os interesses da Irmandade Muçulmana. A sua prioridade é repelir a ofensiva de Haftar, apoiada pelo Egito e pelos Emiratos Árabes Unidos, mas também pelos países que aprovam o combate ao terrorismo.

Tropas do Exército Nacional Líbio – LNA

A Líbia passa por uma verdadeira guerra civil desde 2014, o que fez mais de 20 mil vítimas. No início de 2016, emissários internacionais tentaram impor um governo a Tripoli. O episódio burlesco da chegada de Fayez al-Sarraj deixou sua marca na mente das pessoas. Impulsionado pelas Nações Unidas à frente de um governo de transição, este arquiteto foi escolhido para restaurar a calma e “organizar eleições”. Mas quando o seu avião se aproxima do aeroporto, a brigada que o controla recusou-se a deixá-lo aterrisar. Três meses depois, Fayez al-Sarraj chegou pelo mar, comprando permissão da Brigada Nawasi, que controlava o porto. Esta milícia utilizará a sua proximidade com a Sarraj para forçar os seus homens a ter acesso a um dos fundos soberanos. Outros seguirão o exemplo, por vezes impondo contratos à companhia petrolífera nacional, por vezes impondo cargos de administração em fundos soberanos.

Com a guerra de ocupação da Líbia muitos grupos ganharam muito dinheiro. Testemunhas afirmam que alguns caminhoneiros ganharam tanto dinheiro que chegaram a comprar ilhas na Grécia. Enquanto Sarraj navegava em Tripoli, com o apoio da ONU, o marechal Haftar consolidou seu território no oriente, expulsando os últimos grupos jihadistas das cidades de Derna, Ajdabiya e Al-Djoufrah. Ele está ganhando terreno no Sul, onde suas tropas estão neutralizando vários emires da Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (Aqmi). Sarraj não tem apoio popular na Líbia, conta apenas com o apoio da ONU, e por esse motivo é visto como uma marionete sem controle central. A ONU organizou encontros entre Sarraj e Haftar em 27 de fevereiro de 2019 e 14 de abril, mas os encontros se mostraram infrutíferos. Em 4 de abril o marechal Haftar lançou sua ofensiva em Trípoli. Os seus homens chegaram aos portões da capital e seguem conquistando novos bairros. Para tentar barrar o avanço do NLA de Haftar, a Irmandade Muçulmana enviou armas e líderes militares para combater em Trípoli, em apoio a Sarraj, entre eles Sadah Badi, de Misrata, embora meses atrás ele mesmo estivesse lutando contra Sarraj. A mudança teria ocorrido em troca de muito dinheiro oferecido por Sarraj para comprar o ex-inimigo.

Enquanto Haftar avança com suas tropas em Trípoli, Sarraj visita governos europeus prometendo concessões econômicas em troca de apoio. Ele exige que o Marechal Haftar seja excluído do processo de negociação e enviado de volta para Benghazi. O pedido é irreal porque todos sabem que o marechal Haftar ocupou e pacificou mais da metade do território. Quanto aos americanos, eles não falam. Mas Donald Trump, que fez dos erros da administração Obama no assassinato do embaixador Stevens um de seus argumentos de campanha, presta homenagem ao sucesso da NLA contra grupos terroristas responsáveis pelo crime.

O povo de Benghazi também festeja as vitórias do marechal Haftar. Quando os terroristas dominavam a cidade havia fuzilamentos em praça pública, pessoas enforcadas, minas colocadas em calçadas. A maior parte da população fugiu da cidade na época. Hoje as pessoas estão retornando e a paz voltou à cidade, graças aos militares do Exército Nacional Líbio.

E assim como pacificou Benghazi, o marechal Haftar à frente do LNA avança rumo ao centro de Trípoli. Observadores internacionais avaliam que a vitória do Exército Nacional Líbio está próxima. A partir da Trípoli, todo o país estará unificado e pacificado, e os terroristas serão forçados a deixar o país.

 

MDD – Paraná, Brasil