Fernando Brito – Tijolaço

O bolsonarismo demoniza o tal “Foro de São Paulo” , que seria, na visão deles, um mecanismo de conspiração política internacional, destinado a interferir na política de países latino-americanos.

Descobre-se agora, nos diálogos obtidos pelo The Intercept e publicados pela Folha, que existe, sim, uma organização secreta destinada a violar leis, acordos e a Constituição para apoiar ações para derrubar governos estrangeiros.

A muitos talvez pareça um abuso a mais, entre os tantos que os diálogos já revelaram. E não dos maiores: afinal, faz tempo que o “demônio” da Venezuela justifica tudo, como quase justificou uma agressão militar que acabou não ocorrendo por conta de uma inferioridade bélica e logística que nos levaria a perdas imensas.

Há, porém, para qualquer um observar, a evidência da formação, sob a chefia do então juiz Moro e usando como agentes os integrantes da Procuradoria Geral da República, de uma organização criminosa, que usava não apenas os processos judiciais brasileiros, mas também a cooperação com os Estados Unidos para atingir objetivos político-ideológicos.

E mecânica desta ação é exposta e resumida pela narrativa da Folha:

Os procuradores começaram a debater o assunto na tarde do dia 5 de agosto de 2017, depois que Moro escreveu ao chefe da força-tarefa de Curitiba, Deltan Dallagnol, no aplicativo Telegram. “Talvez seja o caso de tornar pública a delação dá Odebrecht sobre propinas na Venezuela”, disse o juiz. “Isso está aqui ou na PGR?”

É evidente que, sendo matéria de competência internacional, deveria estar na Procuradoria Geral da República. Mas estava com a PGRC, seu órgão superior: a Procuradoria Geral da República de Curitiba. E esta, por Deltan, não se fez de rogada ao apelo do chefe, ainda que os acordos impedissem o compartilhamento das informações:

Em resposta a Moro em 2017, Deltan indicou que os procuradores buscariam uma maneira de contornar os limites do acordo e comunicou a intenção de mover uma ação pelo crime de lavagem de dinheiro internacional. “Haverá críticas e um preço, mas vale pagar para expor e contribuir com os venezuelanos”, acrescentou..

A violação era de tal ordem que houve resistência entre alguns procuradores, que Dallagnol enfrentou fazendo afirmações que, se fossem contra governos de direita seriam tomadas como “internacionalismo comunista”, ao dizer que “o propósito de priorizar [a ação] seria contribuir com a luta de um povo contra a injustiça”.

Fizeram isso com alguns trechos de depoimentos, entregues à então procuradora venezuelana Luisa Ortega, que provocou reclamações ao Supremo Tribunal Federal, onde tinham sido homologados os acordos de delação. Mas o ministro Luís Edson “Aha Uhu” Fachin limitou-se a “pedir esclarecimentos”.

Tudo feito em completo arrepio da legislação brasileira e aos tratados internacionais dos quais o país é signatário que obrigam a que toda cooperação jurídica internacional passe pelo Ministério da Justiça, vá ao exame do STF e, só então, seja distribuída às procuradorias da República para sua execução. Quem quiser conferir, aqui está o documento da OEA (em inglês OAS, Organization of American States, antes que os “pavões peritos” achem que estou tratando da empreiteira).

A trama toda – descrita com a sordidez de detalhes na reportagem da Folha – teve ainda o patrocínio explícito da Transparência Internacional – curiosa transparência feita à base de cochichos secretos, nos quais o procurador, com intimidade extrema, é tratado como “Delta” – articulada com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aquele a quem Moro, em outras revelações, mandava “não melindrar”.

O “Foro de Curitiba” é uma organização criminosa internacional.

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Lava Jato: força-tarefa afirma ser infundada a acusação de vazamento de informações sigilosas

Procuradores defenderam prorrogação de sigilo de material da Odebrecht sobre a Venezuela
A força-tarefa da operação Lava Jato no Ministério Público Federal (MPF) em Curitiba não reconhece as mensagens que têm sido atribuídas a seus integrantes nas últimas semanas. O material é oriundo de crime cibernético e não pode ter seu contexto e veracidade confirmados.
Os integrantes da força-tarefa pautam suas ações pessoais e profissionais pela ética e pela legalidade e é infundada a acusação de que a força-tarefa teria vazado informações sigilosas. Isso pode ser verificado pelos seguintes fatos:
1) Os vídeos publicados pela ex-procuradora-geral venezuelana Luísa Ortega, que teriam sido vazados em agosto de 2017, foram entregues por colaboradores da Odebrecht ao Supremo Tribunal Federal (STF). Naquela época, o material sequer havia sido remetido pelo STF à força-tarefa de Curitiba.
2) Os procuradores da força-tarefa não tiveram contato com a ex-procuradora-geral venezuelana Luísa Ortega quando ela veio ao Brasil, em agosto de 2017.
3) Para tornar o material público, bastaria que seu sigilo não fosse prorrogado em maio de 2017. Naquele mês, a força-tarefa defendeu junto à Procuradoria-Geral da República (PGR), com a concordância do então secretário de Cooperação Internacional Vladimir Aras, a prorrogação do sigilo, o que resultou na Petição 6977 ao STF.
4) O próprio MPF requisitou, em dezembro de 2017, a instauração de inquérito para investigar o vazamento.
5) O veículo provavelmente se valeu de diálogos editados ou falsos, pois o procurador regional da República Vladimir Aras sequer participava do grupo de discussão da força-tarefa, ao contrário do que diz a reportagem, ressaltando-se que ele sempre diligenciou para manter o sigilo de milhares de documentos que tramitaram na unidade de cooperação internacional do MPF.
6) As supostas mensagens que a reportagem apresenta como verdadeiras apontam a constante preocupação com o sigilo, inclusive em data posterior àquela das mensagens que embasam a acusação de vazamento.
7) Inúmeros dados reforçam a independência da atuação da força-tarefa em relação ao Judiciário, como o número de recursos apresentados, de absolvições e de pedidos indeferidos.