Ultrajano – Álvaro Caldas

“O enredo é cinematográfico, mas não estamos no reino da fantasia de Ligações perigosas, filme de Stephen Frears de 1988, drama histórico sobre traições e vinganças entre marquesas e viscondes. Aqui no mundo real das milícias e dos políticos, as ligações são criminosas, envolvendo terror, extorsão, intolerância e garantia de impunidade de seus autores”

         Eles são chamados de “os intocáveis” e não fazem nenhuma questão de ser invisíveis. Agem abertamente, para deixar bem claro quem manda no pedaço. São temidos, têm licença para matar, são pagos para fazer execuções sumárias, cobram pedágio, aluguel, elegem políticos. Controlam tudo nas comunidades que ocupam: água, bujão de gás, “gatonet”, uso de imóveis e terrenos, oferecem proteção e segurança ao comércio, até o pipoqueiro em frente da escola paga taxa para manter seu carrinho. Ex-militares e brancos em sua maioria, ao longo dos últimos anos impuseram seu poder político. Agentes do Estado os observam à distância, porque a esta altura eles já se transformaram no próprio Estado.

São os milicianos, titulares de escritórios de crime, donos de diversos territórios espalhados pelo interior do Estado. Um dos maiores e talvez o mais ativo e influente deles é formado pela milícia que opera em Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio de Janeiro, um verdadeiro bunker da família Bolsonaro, que lá se instalou por meio de Fabrício Queiroz. Ex-policial militar, motorista e depois assessor parlamentar do deputado Flávio Bolsonaro, 37 anos, eleito senador depois de quatro mandatos na Assembleia Legislativa,  filho mais velho do presidente Jair, por ele chamado de meu “garoto”.

Acusado de lavagem de dinheiro e ocultação de bens, Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão de janeiro de 2016 a janeiro de 2017. Também chamaram a atenção dos investigadores do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiraso alto volume de saques e o fato de ele ter recebido repasses de oito funcionários, o chamado pedágio, cobrado no gabinete de Bolsonaro. Além do valor inicialmente revelado, passaram pela conta corrente de Queiroz mais R$ 5,8 milhões nos dois exercícios anteriores, totalizando R$ 7 milhões.

Investigações realizadas pela Polícia Civil e o Ministério Público tornaram explícitos os elos existentes entre milicianos, políticos e outros agentes da burocracia e da Polícia Estadual. Somas elevadas de dinheiro, tráfico de influência, execuções, disputas entre barões do crime. O enredo é cinematográfico, mas não estamos no reino da fantasia de Ligações perigosas, filme de Stephen Frears de 1988, drama histórico sobre traições e vinganças entre marquesas e viscondes. Aqui no mundo real das milícias e dos políticos, as ligações são criminosas, envolvendo terror, extorsão, intolerância e garantia de impunidade de seus autores. O deputado eleito senador Flávio Bolsonaro surge integrado e agindo como espécie de protetor de um desses grupos de milicianos, verdadeiras organizações paramilitares.

Em operação denominada “Os intocáveis”, policiais e integrantes do MP prenderam integrantes da milícia de Rio das Pedras. O ex-capitão da PM Adriano Magalhães de Nóbrega conseguiu fugir. Ele é acusado de chefiar a milícia, de integrar o grupo de extermínio Escritório do Crime e já é investigado pela morte de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, em março do ano passado. O senador eleito pelo PSL mantém antigas relações com Adriano. Homenageou-o duas vezes na Assembleia. Em 2003, propôs moção de louvor ao PM foragido por atuar com “brilhantismo e galhardia”. E em 2005, concedeu-lhe a Medalha Tiradentes, entregue quando ele estava preso.

Os laços revelam grande intimidade. Em novembro passado, Flávio empregou a mãe e a ex-mulher de Adriano como assessoras em seu gabinete. É comum familiares de milicianos serem empregados nos gabinetes de deputados e vereadores. O que não é comum é a extensão dessa ligação com os Bolsonaros, que começou com Jair e se consolidou com o filho, intermediada por Fabrício Queiroz. O dinheiro da milícia financia campanha de políticos, que por sua vez protegem a ação dos milicianos.

     O sociólogo José Cláudio Souza Alves, autor do livro Dos barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense, estudioso da atuação das milícias há 26 anos, afirma com convicção que no Rio de Janeiro “a milícia não é um poder paralelo, ela é o Estado”. Em entrevista à Agência Pública, mostra que são os próprios agentes do Estado, ex-policiais, PMs e bombeiros, que formam as milícias. “A repressão, em geral, confronta o tráfico. Milícia é mais poderosa do que o tráfico. Sua base econômica e política está em expansão. Milicianos são intocáveis.”

As investigações em curso correm sério risco de ser interrompidas, seja por decisão judicial ou ato do governador Witzel, ligado a Flávio Bolsonaro. O ministro Luiz Fux já deu sua colaboração com liminar que suspende a investigação sobre movimentações atípicas de Fabricio Queiroz. As atividades legislativas de Bolsonaro sempre se pautaram pela defesa de policiais e ataques à comunidade LGBT e aos Direitos Humanos.

No contexto dessa atuação de preconceitos e intolerância, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL) renunciou ao seu terceiro mandato e decidiu autoexilar-se para preservar sua vida. Durante a ditadura, pessoas perseguidas também tiveram que deixar o país. Sem garantias de proteção do Estado, Wyllys foi atacado de forma abjeta nas redes socais, numa intensa fúria homofóbica em que ameaçaram cortar seu pescoço. Com seu total silêncio nos casos Bolsonaro e Wyllys, o ministro Sérgio Moro, consagrado campeão da ética e do combate à corrupção na Lava Jato, viu seu capital político esfarelar-se neste primeiro ano de governo, para grande decepção dos seus seguidores e fãs.