O Brasil de ponta cabeça: Agora, o réu é a vítima, o juiz é o culpado.

José de Souza Martins*

A corrupção de que tem sido vítima o povo brasileiro, desde que o Mensalão deu a entender que o País é dominado pelas mediações da rapina, ainda não foi compreendida. O roubo maior é o do nosso imaginário, nossa alma, daquilo que nos identifica e une como povo. É a transformação do Brasil em dois países antagônicos. O drama político atual precisa ser compreendido para acharmos a saída do buraco em que nos meteram. O ponto de partida é o da consciência de que a política acabou.
Meter a mão no dinheiro público não foi invenção dos que chegaram ao poder nos anos 2000. O País sempre soube os nomes dos aproveitadores, conhecia-lhes a cara e neles continuava votando. De certo modo, os larápios da cultura populista não roubavam para si mesmos. Populismo queria dizer, justamente, pacto entre quem manda e quem é mandado, carta branca para o lícito e o ilícito.
O populismo fez do povo cúmplice de todas as anomalias do nosso sistema político. Uns porque comprados com os milhares de empregos públicos bem remunerados, de livre provimento. Outros porque comprados com diferentes modalidades de favorecimento não baseadas no mérito, mas no compadrio, na cumplicidade, na troca de favores.
Outros, porque iludidos pela expectativa de favorecimento em caso de necessidade, desde um túmulo no cemitério local até o empreguinho para o filho desprovido de talento.
O sistema político brasileiro já era uma trama de iniquidades antidemocráticas forte o bastante para assegurar poder a pessoas espertas e suas famílias, o poder oligárquico dos régulos de província e de periferia.
Mas as coisas mudaram e muito. A corrupção foi modernizada e reinventada. A ideologia dos assaltantes do poder não é de esquerda nem de direita. Pode orientar-se ora para um lado ora para outro. Mais frequentemente é ideologia de extremo centro, dos que estão dos dois lados, de preferência do lado de quem tem a caneta que assina portarias, decretos, medidas provisórias, nomeações.
A ideologia é baseada na estranhíssima concepção de que assalto de direita é mau e deve ser combatido. Mas assalto de esquerda é bom e justo, vinga as injustiças de que foram vítimas os pobres em 500 anos de história do Brasil. Supostamente, roubar dos ricos para beneficiar os pobres, falcatrua ideológica na qual os pobres de espírito acreditam. A grande mudança na concepção de corrupção da última dúzia de anos é a de que ela é agora concebida como um direito compensatório. Os beneficiados já não são aproveitadores desonestos. Eles são agora heróis do país. Quando pilhados com a boca na botija, processados, presos, condenados, ergue-se o clamor de que são vítimas de injustiça.
Agora, o réu é a vítima, o juiz é o culpado.
A neocorrupção virou o Brasil de cabeça para baixo, tudo está ao contrário. Ela se baseia num conjunto de justificativas inovadoras e elaboradas. Para que se disseminem é necessário que desacreditemos em tudo em que acreditávamos até há alguns anos. Nem as religiões escaparam. A partir do momento em que seus púlpitos ficaram descabidamente disponíveis para o discurso partidário de alguns, a fé se tornou uma mistificação para santificar quem fé não tem nem tem respeito pelos que a tem.
Já não sabemos qual é a diferença entre a virtude e o pecado, entre o céu e o inferno. As religiões passaram a ser religiões de resultados, de conveniência. Os que se privaram de inúmeros gozos, supostamente pecaminosos, em nome de sua crença viram-na igualada à fé temporária e provisória dos oportunistas do afã de poder. Para que ter fé e ter valores, afinal de contas, se já não há nenhuma diferença entre as ovelhas e os bodes? Tem muito sentido a advertência de Guimarães Rosa: “E Deus mesmo, se vier, que venha armado”.
Uma decorrência dessas inversões de mundo é a da mudança do código de valores fundamentais que são a referência de todos os outros valores que norteiam a vida política e a vida social. A lógica essencial da vida social foi invertida. Como em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, no baile do estábulo, em que os representantes dos bichos, os porcos, dançavam alegremente com o antigo latifundiário e inimigo, já não se sabe quem é porco e quem é gente.
Ainda não sabemos qual a extensão da inversão na alma e na consciência das vítimas. Quem viaja de ônibus, de trem e de metrô já tem alguma ideia da convulsão que atormenta os espíritos e já se manifestou nas últimas eleições. Mesmo quem foi surpreendido pela enxurrada de votos contra o partido dominante ainda não percebeu que os votos não eram para os vencedores, mas contra seus adversários. Os eleitos foram usados pelo eleitorado para expressar a nova mentalidade do Brasil de cabeça para baixo.

*José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras.