Começou em diversos países um novo movimento entre as torcidas organizadas dos clubes de futebol, as torcidas com ideologias. 
No passado os torcedores eram vistos como amantes de seus clubes acima de tudo; hoje, além de torcer pelo clube o torcedor quer participar ativamente da política e da história do país. A ideia é também evitar a manipulação das torcidas por dirigentes alinhados a grupos políticos corruptos.
A seguir entrevistamos um dos líderes da Antifas atleticana, JCL. Ele prefere não revelar o nome para impedir perseguição no trabalho.
Antes mesmo da publicação desta entrevista ela circulou em algumas redes sociais. É grande o número de torcedores atleticanos querendo ingressar nessa nova torcida, e um empresário do bairro Água Verde já se prontificou a financiar camisetas nos próximos dias.
Jovem, atuante, muito conhecido na Baixada Atleticana e nos jogos da Arena, JCL é o nosso entrevistado desta edição. Confira:
Quem são os Antifas?
Somos pessoas de todas as idades, profissões, partidos e gêneros que lutam contra as injustiças sociais em nosso país. Nos posicionamos em defesa das classes menos favorecidas, na defesa dos sem moradia, dos pequenos agricultores e daqueles que defendem a reforma agrária, dos que lutam contra a homofobia e contra o racismo e, de maneira  fundamental nesse momento, contra o governo Bolsonaro e suas políticas.
Como iniciou o movimento?
Os Antifas existem há tempos. No futebol nasceram na Itália e hoje estão espalhados por todo mundo. Aqui em Curitiba já existem organizações há algum tempo, como a Gralha Marx e a ex-CAP ANTIFA, sendo que essa última foi forçada a trocar de nome em função de uma Notificação Extra Judicial feita pela atual diretoria do Atlético.
Quais os objetivos dos Antifas?
Enquanto houver desigualdade, opressão e injustiças, nós estaremos na luta. Mais do que uma concepção teórica, nós sempre estamos realizando atividades e mobilizações, marcadas pela responsabilidade social. Muita gente não tem tempo para esperar por transformações estruturais na sociedade. Elas precisam em primeiro lugar de comida na panela e estômago cheio. Ninguém pode ser um cidadão ou cidadã de verdade se está passando fome. É desesperador para um pai ou uma mãe não ter comida para dar aos seus filhos e nós temos situações assim em Curitiba.
Com a união das torcidas contra o fascismo haverá o fim dos confrontos e violência entre torcedores?
A Antifas são ainda pequenas quando comparadas as nossas organizadas. Elas tem o seu caminho próprio e a ANATORG está  tentando unificá-las em torno de pautas progressistas. Uma parte significativa é da periferia da  cidade. Do meu ponto de vista isso é um processo que tem ser construído lentamente. Há um histórico de brigas, violência, emboscadas, troca de tiros e até mesmo mortes e isso não se apaga de um dia para o outro.  As ANTIFAS dos nossos clubes aqui tem uma boa  relação recente, que já nasceu  construída em  bases democráticas. Nós do Canhotxs temos uma boa relação com o COXA COMUNAS/MOC, com a Gralha Marx,  com os companheiros da Antifa do Operário e com a própria ex-CAP-Antifa, além de estarmos somando  esforço com o  Somos Democracia,  que foi puxado pelos integrantes da Gaviões da FIEL.
Em vários países surgiram movimentos Antifas. A que você atribuo esse crescimento?
Onde tem injustiça e opressão é normal que comecem  a pipocar movimentos de  resistência.  Ninguém suporta ser tratado como gado indo para o abatedouro.  Essa realidade não condiz mais com uma sociedade moderna, sem distribuição da riqueza para todos e todas. Ela é cruel e perversa, reduz as pessoas a nada. Eu não quero voltar a idade média e tenho certeza de que você também não.
Os torcedores atleticanos que desejarem participar do Antifas devem buscar quais plataformas na internet?
Estamos no FACEBOOK e no WhatsApp.  Agora na pandemia nos organizamos por esses mecanismos,  pois em casa de ferreiro o espeto tem que ser de ferro.  Não podemos denunciar um governo como sendo genocida, se ignorarmos as recomendações de proteção. É verdade que fomos a vários protestos, mas apenas com parte de nossas lideranças e somente aqueles que não fazem parte dos grupos de risco.  E mesmo esses tiveram que se cuidar e muito, pois o corona vírus não respeita faixa etária.
Outras torcidas também participam do Antifas?
Como já mencionei, hoje há Antifas em praticamente todos os times das séries A e B. No Nordeste o movimento é muito  forte e organizado através da TAU Nordeste – Torcidas Antifas Unidas. Há movimentos para construirmos ações conjuntas, cada vez mais unificadas.
Por que alguns cartolas são contra os Antifas?
Os  Clubes em  geral são dirigidos por líderes do “andar de cima” da nossa sociedade.  Criou-se uma concepção de que para se dirigir uma equipe profissional de futebol é preciso ser rico. Isso em parte acaba sendo verdade,  pois rico conhece rico e quando a coisa aperta por muitas e muitas vezes, os  dirigentes passam o chapéu  ou usam  recursos próprios para resolver uma ou outra coisa.  No outro extremo há os que usam os clubes para enriquecer e mudar o seu padrão de vida.  Os números do futebol são assustadores quando se fala em transações de jogadores que tem  nível  técnico  diferenciado e as vezes “sobram” comissões para lá e para cá.  Se eu fosse dirigente buscaria colocar meu clube  à serviço da  transformação social, da inclusão, do fortalecimento de uma cultura de respeito e solidariedade e, dentro do possível, ganhando títulos e sendo vencedores.
Como democratizar as torcidas organizadas?
Num primeiro momento isso terá que partir  de lideranças que comandem  essas transformações. Para isso eles próprios  tem que estar convencidos dessa necessidade. As torcidas já estão organizadas de  forma  coletiva em zonas e comandos, organizados nas várias  regiões da cidade. São braços que  tem suas lideranças  que se encontram nos dias de jogos.  Talvez  eles  funcionem de  forma mais  democrática do que possamos imaginar.
O surgimento de candidatos a cargos públicos nas torcidas é algo natural? Ou existe oportunismo político?
E porquê não?  É o jogo  da elite  demonizar  a política e  criar barreiras  que impedem  as camadas  mais pobres da população de se organizar. É tão legítimo quanto o dono  de uma escola privada  virar  Senador, ou de alguém ligado às APAES.
Isso  então  você não considera oportunismo?  Tem  deputada  federal  que tem  um  verdadeiro  serviço de leva-e-traz  de pessoas com problemas de  saúde para a capital. Isso  não é  oportunismo?  Temos  um ANTIFA  candidato  agora e de  forma completamente  legítima.  Poderia ser o nosso candidato comum se a gente estivesse organizado  há mais  tempo.
Defina qualidades de um torcedor exemplar.
Há várias formas de torcer e de se envolver com o futebol.  Cada um deve escolher torcer como se sente melhor. Muitas coisas são formadas  pelo  exemplo. Eu passei  por uma saia  justa ao levar meus filhos ao estádio,  onde tem muito palavrão. Eles  me questionaram  dizendo que  se  eu  os proibia  de falar palavrões,  porquê eu os tinha levado em um local onde  “todo mundo  falava palavrão”.  Não tive uma boa resposta para dar.
No passado tivemos denúncias de membros do crime organizado infiltrados nas torcidas. Fale sobre isso.
Não vivo essa  realidade e não posso me manifestar sobre o que não conheço.  Mas posso dizer que temos organizações  criminosas  no executivo, no legislativo e no judiciário  do país.  Os  exemplos são diários e todos  os dias  alguém é preso. No universo  das torcidas elas teriam que ter um selo de pureza?  Elas estão inseridas na  sociedade e não são  diferentes de nada que temos por aí.
Como construir uma torcida atuante e democrática?
Não tem fórmula para isso,  basicamente é como se constrói qualquer outro tipo de organização. É um exercício diário de diálogo, debate, algumas reuniões e muito trabalho voluntário. E é preciso ter a clareza de quais são os objetivos que se deseja alcançar.
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