Fernando Brito – Tijolaço

Em outras circunstâncias, só um louco imaginaria tal cena.

O presidente de um país viaja para outro país, que está em franca guerra comercial com um terceiro país, justo o que vem a ser o maior parceiro comercial do país do viajante.

E lá, publicamente, dedica-se a ouvir e fazer críticas ao seu maior comprador de produtos.

Pois ponha Bolsonaro, Estados Unidos e China como personagens e você terá a narrativa do que aconteceu ontem, no jantar oferecido na embaixada brasileira para o ex-estrategista de Donald Trump e o alucinado da direita, Olavo de Carvalho, ambos com o privilégio de assentar-se ao lado do presidente.

Que, faz um discurso bem aos padrões da Guerra Fria, delirando com a ideia de um “antigo comunismo não pode mais imperar”, algo que nem Donald Trump se expõe a dizer, atracado como está em conseguir posições vantajosas com a China, a Coreia do Norte e a Rússia.

As agressões gratuitas aos chineses seguiram-se nas vozes do marqueteiro Steve Bannon e, pior, do Ministro da Economia: “a China pode comprar no Brasil, mas não comprar o Brasil”, algo tão pueril que se responde com apenas duas questões. Onde os chineses estão nos comprando e porque estamos loucos para vender tudo o que há aqui, então?

Temos um governo que, em nome de seu ódio ideológico onipresente, está ameaçando toda a cadeia de comércio do país, especialmente a agrícola. Qualquer estudante secundário sabe que os Estados Unidos não querem exportar menos para os “comunistas chineses”, querem exportar mais. E, em grande parte, o mesmo que exportamos, especialmente soja e milho, cujas vendas aos chineses representam um terço de tudo o que vendemos ao exterior.

Entre Bolsonaro e Trump, adivinhem com quem os chineses usarão o poder de barganha de maior comprador destes grãos? Agora estenda isso para outros “derivados dos grãos”, a carne bovina e a de aves e veja o tamanho do estrago em potencial.

Em potencial, aliás, apenas porque os chineses movem-se devagar e prudentemente e foi assim que, em 50 anos, saíram da pobreza extrema para tornarem-se competidores dos EUA pela posição de maior potência do mundo. O Brasil, para eles, decai de alternativa comercial para subproduto da contenda com Trump.

Disse, ao início, que só um louco poderia imaginar o cenário do jantar presidencial de ontem.

Mas a loucura não está na imaginação, estava servida à mesa do fanatismo ideológico que leva o comando de um país extremamente dependente de exportações agrícolas a chutar publicamente seu maior comprador destes produtos.