A história registra alguns personagens desse tipo, que saem do nada, da classe média, e desfrutam os prazeres da classe A, do mundo insondável dos ricos e milionários. O que esses personagens tem em comum? Difícil saber. Mas existem. Aqueles que leem muitos livros se deparam com esses personagens e sabem que muitos deles não são imaginários. Em pleno bairro Água Verde temos um desses personagens, que por motivos desconhecidos vive em uma classe social que não é a dele. Um subversivo da escala social. Pobre, vivendo vida de rico.

Nosso colaborador do jornal Água Verde, chamado Abel, vive com apenas 2 ou 3 mil reais mensais, mas leva uma vida glamurosa entre ricos e milionários. Ganha dinheiro com algumas traduções, orientando publicações de livros com histórias de famílias. Pobre ganhando 2 ou 3 mil reais? Sim, uma vez que ele não tem casa nem carro, portanto, não se enquadra nem na classe média, e ainda gasta mais do que ganha. Pode ser visto no bairro Água Verde dentro de um ônibus ou dirigindo um porsche, ou uma Z4, emprestada por amigos, claro.

Frequenta alguns restaurantes a quilo no bairro, mas come caviar russo e bebe champagne francesa pelo menos 3 dias por semana, convidado à mesa de uma senhora muita rica, moradora no entorno da Praça do Japão. Na mesa dessa senhora, pessoas poderosas, e nosso Abel é sempre convidado. A velha senhora viu algo em nosso personagem, além de ele saber se portar à mesa, dominar alguns idiomas, e saber com exatidão a função de cada um dos talheres e copos que confundem a maioria dos mortais nas mesas requintadas.

Mas ele não sabe o que é puxar saco. Apenas se comporta com educação e serenidade nos locais que frequenta, e isso, de certa forma, atrai algumas pessoas. Contrastando com suas roupas simples, a imensa bagagem cultural de quem leu, por alguns anos, 1 ou 2 livros por dia. Conhece grande parte das literaturas francesa e russa, os poetas mais famosos, os romancistas festejados pela intelectualidade. E ainda assim, toma o ônibus Santa Cândida para ir ao centro da cidade às vezes; outras vezes vai de uber, ou melhor, cabify. Isso não o impede de usar diariamente perfumes franceses, dos mais famosos. As vezes é visto nos restaurantes mais caros da cidade, a convite de algum empresário ou industrial. Sempre convidado. As pessoas tem prazer em sua companhia simples, mas de refinada cultura.

Alguém que não tem dinheiro para passar as férias no nordeste brasileiro, passou férias em Paris, Berlim, Montevideo, Punta del Este, Buenos Aires, Amsterdan, Roma, Zurique, Trípoli, Casablanca. Viajou por muitos países. Esteve nos melhores hotéis e restaurantes das capitais mais famosas. É incrível… mas é verdade. Ele tem fotos para comprovar. Durante uma viagem a um país árabe, ganhou de presente de um sheik um relógio Rolex. Ao chegar ao Brasil, Abel doou o relógio a uma ONG que defende o meio ambiente. Ele disse que seria loucura usar um relógio tão caro. A riqueza não o atrai. Gastar mais do que ganha talvez seja parte do seu charme.

Uma vez ele me contou que sempre que vai a Zurique prefere se hospedar no hotel Hilton, por dois motivos: o primeiro é que ele evita hotéis frequentados por milionários norte-americanos, porque são “caipiras, barulhentos, arrogantes”. A sauna do hotel é frequentada por banqueiros suiços, “pessoas bem educadas e agradáveis”, confidencia Abel.E segundo, porque no restaurante do hotel tem um cozinheiro brasileiro, com o qual ele conversa ao final do jantar e desfruta de um bom vinho trocando informações sobre o Brasil e a situação dos brasileiros na Europa. Não escolhe prato do cardápio porque o cozinheiro brasileiro sempre tem uma surpresa deliciosa a oferecer.

Nos hotéis e restaurantes as gorjetas que ele distribui são de 100 dólares (quase 500 reais) porque, como dizia um velho empresário (EB) de União da Vitória, “as relações humanas são engrenagens de uma máquina complexa, e se você lubrifica bem essas engrenagens, você viaja bem”. Como Abel consegue dinheiro para dar gorjetas tão generosas? Tem amigos generosos. Voltando a Zurique, ele tem um amigo diplomata que sempre que ele o visita o presenteia com um envelope contendo 3 mil euros (aproximadamente 15 mil reais), e repete as mesmas palavras: “este presente (3 mil euros) é para você se divertir em Zurique. Você merece porque viver no Brasil deve ser um tédio”.

Solteiro e sem filhos, agora um homem de meia idade, Abel namorou mulheres ricas que o levaram a passear em imensos iates no litoral brasileiro. Outras o levaram a viajar por países europeus. Mas é uma pessoa que jamais contou vantagem, ou falou mal de alguém. Esse é o Abel.

Atualmente ele passa os dias entre Curitiba e Miami (EUA), desfrutando de boa mesa e excelentes companhias. Tem amigos na Europa, EUA e África, e ganha passagens aéreas e estadias para visitá-los. Frequenta festas em embaixadas em Brasília, e as vezes passa no jornal Água Verde para colaborar com o nosso trabalho que ele considera “importante para a identidade do bairro”. As vezes traz uma garrafa de vinho de presente, que não temos coragem de beber, e vendemos para alguns amigos advogados que apreciam um bom vinho.

Este é um distinto morador do bairro Água Verde, um pobre que vive melhor do que muitos ricos e milionários, afinal, como ele sempre diz, “o melhor de tudo é se divertir gastando o dinheiro dos outros”.

 

Por Carla Regina