Os Divergentes

POR HELENA CHAGAS

Está certo o que muita gente vem dizendo nas redes sociais: ninguém merece ser alvo de chacota por suas convicções religiosas. Deixem a Damares e sua goiabeira em paz, portanto. Respeitar as convicções da Damares, porém, não é achar que ela será uma boa ministra, e nem, sobretudo, aceitar que, a duas semanas da posse de um novo governo, o debate nacional gire em torno de goiabeira, escola sem partido, verbas publicitárias da Caixa, embaixada em Jerusalem, caça às bruxas ideológica e agora – pasmem! – pena de morte, entre outras pautas.

Ninguém merece essa agenda, que parece estar sendo estimulada pelo próprio presidente eleito e pessoas chegadas a ele, como os filhos 01, 02 e 03. Neste domingo, Jair Bolsonaro amanheceu negando, no Twitter, que pretenda debater a implantação da pena de morte em seu governo. O desmentido parece ser dirigido ao Jornal O Globo, mas se destina, na verdade, ao deputado Eduardo Bolsonaro, que defendeu o assunto no jornal.

Bolsonaro dedicou sua atenção a esse tema da mesma forma como, na véspera, havia usado a rede social para defender Damares em sua goiabeira e, nos últimos dias, a falar da extradição de Cesare Battisti, do encontro da ONU que não quer sediar, da Cúpula Conservadora das Américas, etc.

Quem vê pode até se esquecer que Bolsonaro e os seus ainda devem explicações consistentes sobre a movimentação financeira atípica do assessor flagrado no Coafgate. Ou então imaginar que esse sujeito não tem um país inteiro, cheio de problemas, para governar daqui a 15 dias.

A pauta da transição para o governo Bolsonaro vem ignorando solenemente as graves e urgentes questões que ele tem que resolver a partir de janeiro. Alguém tem alguma ideia de como será a reforma da Previdência que ele vai levar ao Congresso? E a tributária, recém-aprovada em comissão na Câmara, vai ser adotada ou engavetada? E as providências obrigatórias e imediatas que têm que ser tomadas para conter o aumento vergonhoso da miséria detectado por estudos recentes?

Pouco ouvimos, ou vimos nas redes sociais, o presidente eleito falar de empregos de forma construtiva e propositiva. Ouvimos Bolsonaro dizer que ser patrão neste país é horrível e sugerir que direitos dos trabalhadores sejam suprimidos. (Ele não disse isso com todas as letras na campanha, e, se o tivesse feito, talvez não tivesse sido eleito).

Às vésperas da posse, Bolsonaro continua se escondendo sob a mesma cortina de fumaça da reforma ideológica e dos costumes que usou na campanha para não ter que falar das questões concretas do dia-a-dia do brasileiro, talvez por não saber bem o que fazer com elas. Discursos desse tipo costumam sustentar a felicidade dos casais a lua-de-mel. Mas depois vêm as contas para pagar, o tanque cheio de roupa suja para lavar, as crianças choronas…

Governar vai muito além de bater-boca sobre a Damares e outros assuntos secundários. Não haverá governo sob a “vibe” da goiabeira…