BRASÍLIA (Reuters) – O presidente Jair Bolsonaro escalou o vice-presidente Hamilton Mourão para ir a reunião de emergência do Grupo de Lima, na próxima segunda-feira, em Bogotá, para discutir a situação na Venezuela, em meio à decisão de Nicolás Maduro de fechar a fronteira com o Brasil e avaliar fazer o mesmo com a Colômbia.

De acordo com a assessoria da Vice-Presidência, Mourão viaja no domingo à noite e volta ao Brasil na segunda, logo após o encontro.

O governo brasileiro decidiu elevar o nível de participação no encontro —normalmente tocado pelo ministro das Relações Exteriores— depois que o governo americano decidiu enviar à reunião também seu vice-presidente, Mike Pence, e pelo agravamento da crise.

Até o fim da tarde desta quinta-feira, o governo brasileiro não havia se manifestado sobre a decisão de Maduro de fechar a fronteira a partir da noite desta quinta. A entrada da ajuda humanitária arrecadada pelo autodeclarado presidente interino da Venezuela Juan Guaidó está marcada para sábado, dia 23.

A Venezuela está apenas se defendendo

Por Igor Fuser, para o Jornalistas pela Democracia –O controle sobre as próprias fronteiras é o primeiro pressuposto para o exercício da soberania de qualquer país.

Quanto à decisão do governo venezuelano de fechar temporariamente a fronteira com o Brasil, é importante assinalar que:

1. A Venezuela jamais representou qualquer tipo de ameaça ao Brasil. É um país amigo, de conduta irretocável nas relações bilaterais.

2. O fechamento da fronteira é uma atitude defensiva, de caráter preventivo, diante da instalação, em território brasileiro, de atores que ameaçam cruzar a fronteira, sem autorização da Venezuela, levando uma suposta “ajuda humanitária” — na realidade uma provocação voltada para deslegitimar e desestabilizar o governo venezuelano.

3. O governo de Bolsonaro age de forma irresponsável ao facilitar o envolvimento do Brasil na campanha dos EUA para a derrubada do governo Maduro. Jà foi um grave erro romper relações com Caracas e reconhecer um usurpador que não tem legitimidade jurídica para exercer o cargo de presidente e que, na prática, não controla nem sequer um único milímetro quadrado do território venezuelano. Mais grave ainda é colocar o Brasil numa posição de guerra iminente contra um país vizinho e pacífico, sem qualquer motivo para isso.

4. O envolvimento do Brasil nas provocações contra a Venezuela é algo que vai contra qualquer concepção do interesse nacional brasileiro. Não é interesse do Brasil uma guerra na nossa fronteira norte, tampouco é do nosso interesse a invasão da Venezuela por tropas dos EUA ou teleguiadas pelo governo estadunidense. Ao contrário:um confronto desse tipo só trará problemas e dificuldades ao Brasil, a começar pelo ingresso de multidões de refugiados.

5. O discurso dos EUA em favor da “ajuda humanitária” é uma grande palhaçada. Ajuda humanitária verdadeira, quem faz são organizações idôneas, qualificadas para essa tarefa, como a Cruz Vermelha Internacional, a Cáritas e os Médicos sem Fronteiras. Nenhuma dessas entidades tem qualquer relação com a ação provocativa dos EUA e inclusive a Cruz Vermelha já denunciou a manipulação política que está por trás dessa operação. Vale ressaltar, também, que os próprios EUA são os principais responsáveis pela falta de alimentos e de remédios na Venezuela, em consequência das sanções e do boicote econômico implementados a partir de Washington. Se o governo Trump quisesse, de fato, ajudar os venezuelanos, bastaria suspender as medidas crueis adotadas contra o povo da Venezuela.

6. Com sua conduta, o governo Bolsonaro joga na lata do lixo toda uma tradição da diplomacia brasileira, que há décadas tem entre seus princípios a não ingerência nos assuntos internos de outros países, a solução pacífica dos conflitos e a manutenção da América do Sul como uma zona de paz.

7. Cabe a todos nós, brasileiros de bom senso, denunciar a conduta irresponsável das autoridades brasileiras perante a crise venezuelana e defender o direito à soberania do país vizinho, contra qualquer tipo de interferência externa.

TRUMP EM 2017: ‘POR QUE NÃO ESTAMOS EM GUERRA COM A VENEZUELA? ELES TÊM TODO ESSE PETRÓLEO…’

Brasil 247 – Na última terça-feira (19), Andrew McCabe, ex-diretor-adjunto do FBI, em entrevista a Lawrence O’Donnell, na MSNBC, explicou passagem de seu livro sobre um encontro ocorrido em 2017 entre Donald Trump e funcionários de Inteligência em que o presidente teria questionado por que os EUA não estavam em guerra com a Venezuela, uma vez que “eles têm todo esse petróleo e estão na nossa porta dos fundos”.

McCabe foi diretor-adjunto do FBI entre fevereiro de 2016 a janeiro de 2018, e foi informado das declarações de Donald Trump por outro agente do FBI, que estava no encontro. “Eu não entendo porque não estamos olhando para a Venezuela. Por que não estamos em guerra com a Venezuela? Eles têm todo esse petróleo e estão na nossa porta dos fundos”, teria dito o presidente dos EUA, segundo McCabe.

A passagem relatada na entrevista está no livro The Threat – How the FBI protects America in the Age of Terror and Trump, lançado este ano nos Estados Unidos. Segundo McCabe, as declarações de Trump sobre a Venezuela deixaram os funcionários do FBI “profundamente preocupados”.

Conta O Globo que, em agosto de 2017, Donald Trump “perguntou continuamente a seus principais assessores sobre uma opção militar para derrubar Maduro e reprimir a crescente crise política e econômica no país, de acordo com vários relatórios. H. R. McMaster, então conselheiro de Segurança Nacional, foi contrário, explicando ao presidente que uma invasão provavelmente não funcionaria e colocaria aliados regionais contra os EUA”. Mesmo assim, “um dia depois de ter conversado com McMaster, Trump ameaçou publicamente uma ‘opção militar’ para a Venezuela enquanto conversava com repórteres”, contou a reportagem.