André Barrocal – CartaCapital

FOTO: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

Salário de procurador garante posição. MP brasileiro é elitista e o mais caro do mundo, dizem pesquisas

A carreira de palestrante de Deltan Dallagnol, chefe dos procuradores da Operação Lava Jato em Curitiba, será investigada pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), órgão de fora da corporação existente para vigiar a categoria. Dallagnol planejou usar a esposa de laranja para disfarçar a violação de leis que proíbem membro do MP de ter empresa comercial, conforme conversas reveladas pelo Intercept. Precisava chegar a tanto por dinheiro?

Os procuradores de Justiça já são bem pagos pelos brasileiros. Era de 28,9 mil reais o salário inicial no último concurso do Ministério Público Federal (MPF), realizado entre 2016 e 2017. Valor capaz de botar os aprovados no 1% mais rico do País, clube vip do qual se parte em caso de renda mensal de 27 mil, nas contas do IBGE.

O contracheque de Dallagnol em junho foi de 36,7 mil reais, fora as férias: 33.689 de salário, 910 de auxílio-alimentação e 2.158 de auxílio-pré-escolar. O do colega Roberson Pozzobon, que seria sócio da firma de palestras desenhada por Dallagnol, foi igual, exceto pela mordomia escolar. Dallagnol tem dois filhos.

A remuneração gorda de procuradores e promotores faz do MP brasileiro campeão mundial de gastos, segundo a pesquisa “O custo da Justiça no Brasil”, publicada em 2015 pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em 2014, o MP custou à população 15,4 bilhões, 0,32% do PIB. Na Itália, morde por ano 0,09%. Em Portugal, 0,06%. Na Alemanha e na Espanha, 0,02%.

É uma carreira com privilégios de berço, um “segmento fortemente elitizado”, de acordo com outra pesquisa, intitulada “Ministério Público: guardião da democracia brasileira?”, publicada em 2016 pela Universidade Cândido Mendes, do Rio. Dos 899 procuradores e promotores entrevistados, 77% eram brancos, 70% eram homens, 60% de seus pais e 47% de suas mães tinham diploma.

Dallagnol é filho de procurador. Em “Prosopografia familiar da ‘Operação Lava Jato’ e do ministério Temer”, outra pesquisa na UFPR, de 2017, os autores afirmam: “A classe dominante do Paraná tradicional é uma grande estrutura de parentesco, quase sempre com as mesmas famílias da elite estatal ocupando simultaneamente os poderes executivo, legislativo e judiciário”.

Especificamente sobre Dallagnol, o texto diz: “Tal como nos outros dois casos [de Sergio Moro, então juiz, e de Carlos Fernando Santos Lima, também procurador] verificamos uma reprodução dentro da elite estatal, com os filhos preservando muitas vezes os valores e as ideologias dos pais na década de 70, época de autoritarismo e justiça de exceção”.

No Brasil do século XXI, Dallagnol também é exceção: pertence ao 1% mais rico de um dos dez países mais desiguais do planeta.