Bolsonaro e seu governo nunca estiveram tão fracos. O barco frágil navega à vista, fazendo água, atirando um ministro ao mar por semana para aliviar o peso, desviando de escolho em escolho. Com razão, os senhores generais se agitam. Um ex-tenente amalucado segura o timão e finge que é o capitão – mas foram eles, os generais, que transformaram o país num barco negreiro desconjuntado. E estão, agora, instalados comodamente no castelo da popa, repartindo ordens pra todos os lados. Mas seguem assustados. A peste devasta os porões e os proprietários do tumbeiro exigem remuneração de seus capitais. E os senhores militares se perguntam à baixa voz: – E se os cativos encerrados nos porões infectos romperem as correntes e invadirem o convés, à procura da cabeça dos negreiros?

Como Michel Temer, Jair Bolsonaro é mero instrumento do golpismo, um produto de carregação e baixo custo, com limite de uso pré-fixado. Descartável, pode ser lançado ao lixo, caso comece a comprometer a ordem golpista em instalação. Essa não é porém a primeira opção do grande capital e do imperialismo – e, portanto, da alta oficialidade vende-pátria, que os representa no país. Mesmo a substituição de Bolsonaro organizada nos quartéis tem seu custo político, já que os generais mostrarão ainda mais a cara, revelando-se como os verdadeiro senhores do poder, por detrás do trono do soberano abobalhado.

Imensa república das bananeiras

Mas a crise assume caráter de catástrofe geral, ao avançar sobre um país enfraquecido por décadas de governos sociais-liberais e, desde 2016, por uma ordem golpista literalmente antropofágica. O golpismo foi pego de calça curta pelo Covid-19, quando literalmente se dedicava à transformação final do país em produtor e exportador de produtos primários e manufaturados de baixo valor agregado – ou seja, em uma imensa república das bananeiras!

A preocupação não é com a miséria da população ou com as eventuais centenas de milhares de mortos, quando o vírus se alastrar de Estado em Estado, de região em região, de município em município. Um avanço inevitável no contexto da enorme trapalhada em que se transformou o combate à pandemia no país, sob o comando de um presidente, de um governo e de uma ordem golpista dominantemente negacionista.

Um Milistério para esconder mortos

O morticínio popular é prosaicamente considerado como custo marginal da metamorfose patológica do país, de nação industrializada, em estado neo-colonial globalizado, no contexto do Covid-19. A mortandade deve ser organizada, não combatida. A literal militarização do Ministério da Saúde – agora Milistério, segundo conhecido humorista- não deixa espaço para dúvidas. Os médicos, que aprenderam a salvar, deixaram o lugar aos militares, treinados para matar e conviver com a morte. E, se no passado os senhores generais desapareceram vivos, no presente, se preparam para fazer desaparecer mortos.

O golpismo, com os militares à cabeça, se mobiliza para organizar a retomada da produção econômica, no contexto de ordenamento que deixa o vírus rolar e combate a insatisfação popular. Os senhores generais temem que o desespero da população se transforme em explosão desorganizada e, nos piores dos casos, organizada, em resposta à açougagem, ao desemprego, à fome geral. Flagelos impostos pela política, insensível e impiedosa, de proteção da economia, em favor dos grandes interesses.

A política do coturno

A inevitável degradação das condições sanitárias e sociais da população pobre e trabalhadora torna mais do que provável a radicalização da pressão do coturno sobre o país, já não mais apenas pontual, a um nível difícil de prever. Tudo, possivelmente, com Bolsonaro no papel de presidente testa-de-ferro dos senhores oficiais, que já invadem a administração federal aos milhares, como gafanhotos, na tradicional salvação messiânica castrense, que tantos males causou através do passado republicano do país. E, é claro, à busca da tradicional “boquinha”, já que ninguém é de ferro.

Desde antes do golpe de 2016, a “oposição bem comportada” manda a população e os trabalhadores para casa, exigindo que pensem apenas nas eleições e como elegê-la. Para que, ninguém sabe! A “oposição que a direita gosta” preocupa-se sobretudo em mostrar-se confiável ao golpismo e, assim, manter seus privilégios e sinecuras. Pois, afinal de contas, ninguém é ferro! Nos últimos tempos, propõe “Frente de Salvação Nacional”, em que cabem todos, até mesmo os golpistas ditos “racionais”., que ninguém sabe onde estão escondidos. Todos, confundidos, de mão dadas, exigindo apenas o afastamento, por meios constitucionais, do Ogro genocida na presidência. O resto ficaria como está, para não irritar os senhores generais, o grande capital e afastar os putativos direitistas anti-Bolsonaro.

A oposição encolhida se encolhe ainda mais

A “oposição encolhida” procura difundir entre a população -desmobilizada, estressada, horrorizada, massacrada-, a idéia de que a única fonte de todos os males é o ex-tenente e seus terraplanistas mais próximos. E que a salvação da lavoura, o jeitinho de sair fácil do sufoco, estaria na entrega do poder ao general Hamilton Mourão, proposto como uma espécie de gentleman fardado, transigente com o homossexualismo, com o direito do aborto e por aí vai.

A proposta da “oposição faz de conta” de impeachment de Jair Bolsonaro tem como desdobramento lógico, mas sempre implícito, a entrega do governo ao general de cinco estrelas. Querendo pousar na frente do cordão dos puxa-sacos, Flávio Dino, governador pecedobista do sofrido Maranhão, em inícios de abril, verbalizou publicamente o desejo da “oposição engana-bobo” de que o vice ocupasse, quanto antes, a cadeira do presidente chupa-cabras. Para os estrategistas da rendição incondicional, Mourão seria a encarnação do setor “racionalista” ou“humanista” ou mesmo “nacionalista”, no seio das forças armadas.

Mourão – golpista raíz

Em 14 do presente mês, no Estado de São Paulo, o general Mourão, vice-presidente da segunda administração golpista, desfez as elucubrações fantasmagóricas dos desmandos e desgraças atuais da nação como responsabilidade do desvairado analfabeto funcional. Mourão deixou claro que as receitas aplicadas em forma desajeitda pelo mentecapto incapaz de recordar os nomes do próprios filhos são todas escritas nos quartéis. Apresentou, na tradicional linguagem truculenta do militarismo brasileiro, a plataforma mínima a ser aceita pela sociedade como um todo, para que não ocorra intervenção militar ainda mais ativa.

Os quartéis exigem, por primeiro, o fim da “polarização”. Ou seja, o abafamento geral da crítica ao golpismo e às suas medidas. Todos, portanto, sentadinhos, de mãos dados, pois somos ou não somos o pais da cordialidade e da transigência?! E, como o importante é a versão e não o fato, os fardados exigem que a imprensa não divulgue o pouco que divulga da dramática situação nacional. Exige que ela pratique a auto-censura, para que não seja censurada. Mas a rendição ordenada é geral.

Propõe-se nada menos do que a submissão da Justiça, superior e intermediária; dos Estados da federação e do Congresso Nacional, ao governo central golpista. E não se aceitaria, desde agora, que nenhuma “personalidade” política denuncie no exterior a real situação do país, para não desvelar a militarização a rédeas soltas que vivemos. Nem que seja na porrada, no estilo “prendo e arrebento”, se construirá no exterior a visão do Brasil como país pacífico, alegre, cuidadoso de sua gente e seu território, de instituições democráticas exemplares. O artigo termina com ameaça clara: rendição ou explicitação do golpismo. “Há tempo para reverter o desastre. Basta que se respeitem os limites e as responsabilidades das autoridades legalmente constituídas.”

A solução da avestruz

Fora um muxoxo aqui, outro ali, a declaração espúria, de um general ocupando a vice-presidência devido a eleições viciadas, passou sem maiores comentários dos responsáveis das instituições políticas, sociais e institucionais do país. Quanto à dita oposição parlamentar, ela fez que não ouviu o recado e apressou-se a ir apresentar mais dois pedidos de impeachment.

No dia seguinte ao artigo terrorista de Hamilton Mourão, a direção nacional do PT decidiu apresentar, apoiado em seus aliados tradicionais, proposta de deposição de Bolsonaro por crimes de improbidade administrativa e qualquer coisa como gestão criminosa da pandemia. Três dias mais tarde, os deputados federais e estaduais do PSOL, com outros dignitários daquele partido, protocolaram pedido de impeachment.

Todos de mãos dadas

Finalmente, hoje, todos, dos mais rendidos, como o PT e o PCdoB, passando pelos indecisos, como o PSOL, chegando aos radicais, como a UP, o PCB, o PCO e o PSTU, e mais de quatrocentas entidades foram se ajoelhar, diante do Parlamento golpista, que tem aprovado o massacre da população, para rogar a Rodrigo Maia que siga adiante com pedido de impeachement, e não o enterre com os talvez mais de trina que tem guardados na gaveta.

Qual o sentido dessa iniciativa, de hoje, que se apresenta como diversa, devido a pretenso peso político e social maior, mas com as mesmas nulas possibilidade de prosperar, caso não recebe o aval dos quartéis, e, que, caso chegue a bom porto, com todas as licenças superiores em ordem, substituirá um ex-tenente golpista atrapalhão por um general de cinco estrelas, também golpista, mas competente?

Vida Longa à Frente de Salvação Nacional!

Inicialmente, a apresentação do presentge pedido de impeachement sinaliza a consolidação de fato da proposta de “Frente de Salvação Nacional”, no que se refere a todos os partidos que se reivindicam da esquerda, apesar das ressalvas de praxe dos que embarcam no bonde propondo que não pagarão a passagem. Desde agora, a luta centra-se no impeachment de Bolsonaro, à espera das eleições, enquanto o golpismo se consolida, com Bolsonaro ou com Mourão.

Desde o golpe de 2016, no parlamento e governos estaduais que dirigem, os representantes do PSOL, PT, PCdoB et caterva procuram se acomodar à nova ordem, como proposto. Na Câmara e no Senado, tem fechado os olhos a iniciativas golpistas de todo tipo, quando não as apoiaram. Seguem a missa ajoelhados, rezando contritos para manterem suas sinecuras na nova ordem militarizada em institucionalização. Entretanto, há que se reconhecer que não se trata apenas de adaptação servil de última hora – por décadas, antes de 2016, aquelas agrupações já se desdobraram em serviços aos donos da riquezas e do poder. Apenas, agora, adaptam-se à nova situação, já que os senhores, mutatis mutandis, são os mesmos.

Marcha soldado, cabeça de papel

Com o robusto pedido de impeachment, descarregam as responsabilidades do golpismo -que negam- nas costas de Bolsonaro e de seus próximos. Registram que estão prontos para aceitar e santificar o golpista e entreguista Hamilton Mourão como presidente legal e constitucional do país, mesmo em situação de restrições democráticas ainda mais duras e explícitas. Literalmente, propõem o “Fora Bolsonaro” e o “Fica Mourão”, para ajudar a salvar o golpismo, livrando-o de carga já inútil.

Apenas a população nas ruas, em luta incessante exigindo o “Fora Bolsonaro, Fora Mourão, Eleições Gerais Imediatas” e, sobretudo, a volta dos militares aos quartéis, de onde não deviam jamais ter saído, aponta para saída do atoleiro em que se encontram os trabalhadores e a população. Volta dos militares para os quartéis com a punição, é claro, dos golpistas. Minha mãe cantava, quando eu era menino, uma canção, interessante para os dias atuais. Era mais ou menos assim: “Marcha soldado, cabeça de papel, marcha direito, de volta direto pro quartel.” (Duplo Expresso, quinta-feira, 21/05/2020).

Mário Maestri, 71, historiador, é autor de

Revolução e contra revolução no Brasil. 1530 / 2018.

https://clubedeautores.com.br/livro/revolucao-e-contra-revolucao-no-brasil#.XW2RdS3Oogt