*José de Souza Martins

Ninguém perde a infância sem sofrer as consequências. Trabalhar no tempo de brincar mutila o entendimento da criança, rouba-lhe a imaginação e o tempo do afeto
No dia 4 de julho, no Facebook, o presidente da República defendeu a salubridade do trabalho infantil. Disse que começou a trabalhar com 9, 10 anos de idade: colhia milho na fazenda em que o pai trabalhava. E concluiu: “Não fui prejudicado em nada”.
Foi, mas disso não tem consciência. Na alienação, própria do trabalho moderno, o acobertamento de suas reais condições é uma necessidade da produção, que cria a subjetividade cúmplice de quem trabalha.
Tenho, diante do nariz, enquanto ouço a manifestação presidencial, minha Carteira de Trabalho do Menor, de capa vermelha, emitida pelo Ministério do Trabalho, expedida em 12 de dezembro de 1952, logo depois de ter completado 14 anos de idade.
Com a carteira e o trabalho, o país me confiscou a adolescência, na jornada de 8 horas de trabalho, 6 dias por semana. Na verdade, eu já trabalhava desde os 11 anos de idade, trabalho ilegal. Tive carteira de trabalho só quando minha idade o permitiu. Aí era legal, ainda que não fosse moral.
Na carteira está anotado o número da placa de metal que eu levava no peito, que me identificava na portaria da fábrica: 978TC. Na página 8, consta que fora contratado como praticante por Cr$ 3,30 a hora. Na página 21, consta que paguei Cr$ 26,40 de imposto sindical, um dia de trabalho, relativo a 1953, para o sindicato que eu não sabia o que era nem onde era.

Em novembro de 1953, comecei a pagar a contribuição da Previdência Social. Contribuí durante 44 anos, mais a contribuição compulsória que venho fazendo desde que me aposentei, há 16 anos. O que soma 60 anos do que é, hoje, na verdade, um tributo, confisco de vida. E querem aumentar isso! Sem contar os quatro anos de minha infância como trabalhador clandestino, entre 1950 e 1953, em que o Brasil ficou mais rico às custas da infância que eu e milhões de crianças não tivemos.
O presidente da República se refere ao seu trabalho “pesado” porque colhia milho na fazenda em que o pai trabalhava. Nem por isso a criança Jair Messias deixava de ser explorada. O empregado da fazenda era seu pai, mas a fazenda recebia de graça o trabalho de seus filhos.
Como ocorreu com tantas crianças, na primeira fábrica em que trabalhei, meu trabalho era pesado não porque tivesse peso, mas porque era perigoso. Exigia de mim um esforço físico que fazia do meu corpo de criança um precoce corpo de operário adulto. Ficaram sequelas físicas. Era pesado porque, ao roubar-me a infância, colocou-me sobre os ombros o peso da vida quando eu ainda não tinha vida suficiente para carregar tamanho peso.
Uma coisa é conhecer o mundo na experiência de colheita de uma espiga de milho, caso do presidente. Outra coisa é conhecê-lo no uso de pesada guilhotina no corte de folhas de flandres, ao usar o peito para aumentar a força que minhas mãos de jogar fubeca ainda não tinham.
Não vou chorar por ter ido para a fábrica em vez de ter ficado na rua a brincar com a molecada do subúrbio operário. Fiz o que qualquer criança fazia, nas fábricas em que trabalhei: o jogo do contente. Era divertido, embora falso. Eu encarava as máquinas, seu ruído dodecafônico e seu ritmo horizontalizante da mentalidade e o colorido dos materiais como parque de diversões.
De fato, quem já trabalhou de verdade ou viu “Tempos Modernos” (1936) sabe o que é isso. Vê o lado de fora do trabalho, que faz rir e debochar, mas não o lado de dentro, no distanciamento do trabalhador de si mesmo que a fábrica produz. No caso da criança, ela não vê que no fim da jornada de trabalho, quando sai da fábrica, sai com um pedaço a menos, o da infância que de modo invisível se tornou lucro e coisa alheia.
Muitos pais acham, com razão, que preferem os filhos no trabalho e não na rua, para que não fiquem expostos aos perigos sociais que a rua hoje representa. Mas, para que as crianças não trabalhassem, os pais teriam que ganhar o suficiente para mantê-las. Não ganham. Além disso, a sociedade teria que oferecer aos imaturos a educação em tempo integral e condições de infância e adolescência em tempo integral. É a liberdade de fantasiar que educa para a vida, não o trabalho impróprio da criança-coisa.
Ninguém perde a infância sem sofrer as consequências. Trabalhar no tempo de brincar mutila o entendimento da criança, rouba-lhe a imaginação e rouba-lhe o tempo do afeto. Ela deixa de ser um filho para ser um salário. O trabalho antes do tempo empobrece sua visão de mundo. O presidente da República pode achar que não foi prejudicado em nada, por trabalhar na infância. Mas, por meio dele, nós fomos. Sua visão pobre do mundo e da vida, de colhedor de milho, nos empobrece a todos, também as crianças de agora.
*José de Souza Martins é sociólogo. Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Moleque de Fábrica” (Ateliê Editorial).