Leonel Brizola foi um patriota que pegou em armas para defender o Brasil da sanha dos traidores da Pátria. Lutou durante toda sua vida em defesa dos interesses do povo brasileiro, e foi perseguido e caluniado pela mídia corrupta e canalha – incluindo a Globo -, pelos políticos e militares corruptos e traidores, pela elite fascista e nefasta.

 

Há 99 anos, em 22 de janeiro de 1922, nascia Leonel Brizola, em Cruzinha, interior do Rio Grande do Sul. A infância de Brizola foi marcada por privações. Seu pai, José Oliveira dos Santos Brizola, foi morto por soldados leais a Borges de Medeiros durante a Revolução de 1923. Sua mãe, Onívia de Moura, teve as terras da família confiscadas em função de um litígio judicial. Após concluir o ensino básico no Colégio Metodista, Brizola mudou-se para Porto Alegre, onde trabalhou como graxeiro, engraxate e serviu no exército. Concluiu posteriormente o curso científico no Colégio Júlio de Castilhos e, em 1945, ingressou no curso de engenharia civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Durante a graduação, Brizola se filiou ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e ajudou a organizar a ala jovem do partido, onde conheceu sua futura esposa, Neusa Goulart, irmã do futuro Presidente da República João Goulart.
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Em 1947, Brizola foi eleito deputado estadual. Dedicou seu mandato à defesa de pautas do movimento estudantil e participou da Assembleia Constituinte de 1947. Foi reeleito em 1950 e assumiu o cargo de líder da bancada trabalhista na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Em 1952, aceitou o convite do governador gaúcho Ernesto Dornelles para assumir a Secretaria de Obras Públicas, onde coordenou o Plano de Obras do Estado, investindo em obras de infraestrutura e saneamento básico. Dois anos depois, foi eleito deputado federal com a maior votação até então – mais de 103 mil votos. Na Câmara dos Deputados, foi ferrenho opositor do reacionário e golpista Carlos Lacerda, parlamentar da União Democrática Nacional (UDN). Em 1955, Brizola fundou o jornal “Clarim” e lançou sua candidatura à prefeitura de Porto Alegre. Eleito, investiu na ampliação da rede municipal de ensino e obras de saneamento básico.
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Em 1958, Brizola venceu a disputa pelo governo do Rio Grande do Sul pelo PTB, derrotando o candidato da Brigada Militar, Walter Peracchi Barcelos. Sua gestão foi novamente marcada por pesados investimentos na educação. Buscando zerar o déficit escolar, Brizola construiu mais de 6.300 escolas (ditas “Brizoletas”), criou 689 mil novas vagas e abriu concurso para 42 mil docentes. Suas ações transformaram o Rio Grande do Sul no estado com a mais alta taxa de escolarização do Brasil. Também investiu em habitação, infraestrutura e priorizou a agenda nacional-desenvolvimentista, colocando em prática um projeto de industrialização do estado e consolidação da rede estatal de serviços públicos. Para isso, Brizola nacionalizou uma série de empresas estrangeiras, sobretudo estadunidenses: estatizou a Companhia de Energia Elétrica Riograndense, da Bond and Share, detentora do monopólio da energia elétrica na Região Metropolitana de Porto Alegre, e encampou a International Telephone and Telegraph, transformando-a em Companhia Riograndense de Telecomunicações.
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As estatizações causaram profundo incômodo no governo estadunidense, compelindo o presidente John F. Kennedy a sancionar a Emenda Hickenlooper, que previa sanções a quaisquer países que expropriassem empresas dos Estados Unidos. Brizola também criou o Instituto Gaúcho de Reforma Agrária, visando combater a concentração fundiária do estado e prestar assistência técnica e crédito para pequenos produtores. Também decretou a concessão de títulos de propriedade de terras na região do Banhado do Colégio e doou sua própria fazenda, denominada Pangaré, para um grupo de 30 agricultores.
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Em 1961, Brizola obteve destaque nacional ao criar e liderar a Campanha da Legalidade – um movimento de defesa da institucionalidade democrática que pressionava pelo direito de João Goulart de assumir a Presidência da República. Após a renúncia de Jânio Quadros em 1961, os militares tentaram impedir a posse de Goulart em função de suas ligações com os movimentos sindicais e setores da esquerda. Com apoio do general Machado Lopes, Brizola passou a utilizar as estações de rádio do estado para transmitir, a partir do Palácio Piratini, chamadas nacionais denunciando as ações golpistas dos militares. O alto oficialato das Forças Armadas chegou a ordenar o bombardeio da sede do governo gaúcho, mas os sargentos e suboficiais da Base Aérea de Canoas se recusaram a cumprir as ordens. Os militares propuseram a mudança do sistema de governo para o parlamentarismo como condição para Goulart assumir a presidência. A contragosto de Brizola, Goulart aceitou. O regime presidencialista seria reinstituído dois anos depois, por meio de um plebiscito.
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Leonel Brizola armado no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, em meio à Campanha da Legalidade, quando defendeu a posse de João Goulart. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1961.
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Em 1963, Brizola se candidatou a deputado federal pelo extinto estado da Guanabara, que englobava o atual município do Rio de Janeiro, sendo eleito com 269 mil votos – quase um quarto do eleitorado carioca. No congresso, passou a atuar pressionando pelas reformas de base e por mudanças na legislação eleitoral. Brizola instava Goulart a radicalizar seu governo, sugerindo a constituição de grupos paramilitares e organizações de base para defender e difundir as mudanças reivindicadas pela esquerda nacionalista, impor a reforma agrária, estender o direito ao voto aos grupos marginalizados e impor maior controle sobre a ação de empresas e organizações estrangeiras atuantes no país.
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A postura de Brizola enfureceu Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, que comparava sua retórica às técnicas de propaganda de Joseph Goebbels, enquanto articulava a deposição de Goulart em conluio com o empresariado, os militares e grupos de extrema direita. Goulart, por sua vez, tentava impor uma política de conciliação, acenando com simpatia à base da esquerda nacionalista, mas suavizando a retórica e as ações de seu governo para tentar obter apoio dos liberais e dos setores mais moderados da direita. Durante o Comício da Central do Brasil, Brizola defendeu a criação de uma Assembleia Nacional Constituinte integrada por camponeses, operários e nacionalistas.
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A postura combativa de Brizola foi um dos principais fatores que motivaram a pressão do governo estadunidense pela troca de regime. Em uma correspondência enviada por Lincoln Gordon ao Departamento de Estado em março de 1964, o embaixador estadunidense descreveu Goulart como “um oportunista hipnotizado por Brizola”. Em 1º de abril de 1964, Goulart foi derrubado por um golpe de Estado e o seu governo foi substituído pela ditadura empresarial-militar. Brizola o acolheu em Porto Alegre e tentou organizar a resistência ao golpe, proferindo discursos inflamados exortando o povo e os suboficiais do exército a “ocupar os quartéis e prender os generais”. O próprio Goulart, entretanto, mostrou-se descrente e desinteressado em articular um contra-ataque à quartelada. Assim, após um mês, Brizola fugiu do Brasil e se refugiou no Uruguai, onde Goulart já estava exilado. Grupos de simpatizantes brizolistas ainda tentaram sublevar-se em ações de guerrilha em Caparaó e no Sul do Brasil, sem sucesso. Brizola passou seus primeiros dez anos de ditadura exilado no Uruguai e se recusou a participar da Frente Ampla – um grupo de líderes políticos que pressionava pela redemocratização, incluindo o próprio Goulart, o ex-presidente Juscelino Kubitschek e até mesmo golpistas arrependidos como Carlos Lacerda.
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Em 1973, o governo uruguaio também foi derrubado por um golpe militar e passou a cooperar com o regime brasileiro no âmbito da Operação Condor – uma aliança política entre os regimes militares sul-americanos, sob a liderança da Agência Central de Inteligência (CIA) e do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que visava suprimir os setores políticos de esquerda por meio de repressão, vigilância, tortura e assassinatos. Entre 1976 e 1977, três membros da Frente Ampla – Kubitschek, Goulart e Lacerda – morreram sucessivamente em circunstâncias misteriosas. Com a eleição de Jimmy Carter para o governo estadunidense, houve o arrefecimento do apoio à Operação Condor e Brizola obteve asilo político nos Estados Unidos, negociado pelo conselheiro John Youle. Nos Estados Unidos, organizou uma rede de contatos reunindo exilados brasileiros, políticos e acadêmicos estadunidenses contrários ao regime militar. Mudou-se em seguida para Portugal, onde lançou a Carta de Lisboa, anunciando sua intenção de refundar um Partido Trabalhista no Brasil.
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Com a sanção da Lei da Anistia em 1979, Brizola retornou ao Brasil, tentando restaurar o Partido Trabalhista Brasileiro como um movimento de massas. Foi, entretanto, impedido de usar essa denominação, pois o registro da legenda havia sido entregue pelos militares a um grupo simpático ao regime. Brizola fundou então o Partido Democrático Trabalhista (PDT) nesse mesmo ano, mas teve dificuldades em recuperar o apoio dos setores trabalhistas, agora já organizados no chamado “novo sindicalismo”, orbitando em torno das centrais trabalhistas dos metalúrgicos de São Paulo e de seu líder, Luiz Inácio Lula da Silva, que fundaria no ano seguinte o Partido dos Trabalhadores (PT). O PDT conseguiu, entretanto, obter apoio de importantes setores da esquerda e se filiou à Internacional Socialista em 1986.
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Brizola buscou reposicionar sua base, evitando disputar com Lula o apoio da classe trabalhadora e do sindicalismo organizado. Ao invés disso, procurou criar novos laços com a população carente das áreas urbanas não organizadas e resgatar os vínculos históricos com o nacionalismo de esquerda. Em 1982, tendo Darcy Ribeiro como companheiro de chapa, concorreu ao governo do estado do Rio de Janeiro, nas primeiras eleições diretas ao executivo fluminense desde 1965. Não obstante, a empresa Proconsult, de propriedade de ex-funcionários do serviço de inteligência militar, havia estabelecido um processo de contabilização fraudulenta das cédulas de votação em favor do rival de Brizola, Moreira Franco. A Rede Globo imediatamente ecoou os prognósticos da Proconsult que sinalizavam a vitória de Moreira Franco. Ciente da fraude, Brizola passou a denunciar o esquema em coletivas de imprensa, entrevistas e declarações públicas, incluindo uma histórica discussão ao vivo com o diretor da Globo, Armando Nogueira. Desmascarada a fraude, Brizola foi declarado vencedor do pleito e assumiu o governo fluminense.
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Durante seu governo, Brizola desenvolveu um ambicioso projeto educacional de construção dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) – instituições educacionais, recreativas e culturais, sediadas em prédios projetados por Oscar Niemeyer, que deveriam funcionar em período integral junto às comunidades carentes. Também criou programas de extensão de serviços e construiu habitações populares junto às favelas. Opondo-se à repressão policial e visando combater o perfilamento racial e social por parte de agentes públicos, Brizola ordenou à polícia que se abstivesse de realizar invasões arbitrárias em favelas, preferindo concentrar esforços na desarticulação dos esquadrões de extermínio e das milícias. No âmbito da política nacional, Brizola se engajou nas manifestações das Diretas Já e organizou o Comício da Candelária. Durante a redemocratização, mesmo não confiando politicamente em Tancredo Neves, orientou a bancada do PDT a votar em seu favor.
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Em 1989, Brizola disputou a primeira eleição direta para a presidência desde o fim do regime militar. O pleito ocorreu em paralelo com a crise do bloco socialista na Europa, o que motivou Brizola e a esquerda institucional brasileira a moderarem seu discurso, buscando certa conciliação com as elites e evitando temas como reforma agrária e nacionalização de empresas privadas. Brizola terminou a disputa em terceiro lugar, pouco atrás de Lula. A eleição consolidou o Partido dos Trabalhadores como principal força de esquerda do país, um feito obtido graças à grande penetração da legenda junto aos movimentos sociais, trabalho de base e organizações sindicais. Brizola apoiou Lula no segundo turno, o que foi fundamental para que o candidato petista ampliasse sua votação no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, mas Fernando Collor venceu a eleição.
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Em 1990, após o fracasso das negociações sobre uma possível fusão de PT e PDT, Brizola venceu novamente as eleições para o governo fluminense. Em seu segundo mandato, Brizola inaugurou a Universidade Estadual do Norte Fluminense, construiu a Linha Vermelha e fez novos investimentos em educação e moradia popular, mas a crise fiscal do Rio de Janeiro e a falta de apoio do legislativo estadual engessaram sua gestão. A falta de apoio inicial ao impeachment de Fernando Collor, que Brizola chegou a descrever como um golpe, também causou críticas e desgaste junto ao seu eleitorado e aos aliados políticos.
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A crise do brizolismo se expressou mais fortemente na eleição presidencial de 1994, quando Brizola terminou em 5º lugar. Na eleição de 1998, concorreu como vice na chapa encabeçada por Lula, mas ambos foram derrotados por Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno. Na eleição de 2002, Brizola apoiou Ciro Gomes no primeiro turno e Lula, vencedor do pleito, no segundo. Brizola deu apoio a Lula durante o início do primeiro mandato, mas rompeu com o seu governo em dezembro de 2003, criticando-o por empreender políticas neoliberais e negligenciar bandeiras tradicionais da esquerda. Faleceu alguns meses depois, em 21 de junho de 2004, aos 82 anos.