Itália já reúne um conjunto bastante consistente de informações que permitem compreender como tudo isso aconteceu e, como poderia ter sido evitado.

Jornal GGN

por Arnaldo Cardoso

Nas últimas semanas o mundo todo se chocou e comoveu com as dramáticas imagens e informações vindas da Itália, especialmente da província de Bergamo, decorrentes da mortífera evolução da pandemia de coronavírus. Mas na sequência do choque e comoção é a indignação que ganha espaço com as evidências da irresponsabilidade e ganância de homens que, através de suas decisões, contribuíram para a escalada de morte que se instalou na região e para além dali.

Bergamo é uma província de cerca de 120 mil habitantes localizada na rica região da Lombardia, no norte da Itália. A Lombardia concentra 10 milhões de habitantes e 13.900 empresas; Milão é sua capital e símbolo da pujança econômica da região mais industrializada do país.

A Itália que hoje contabiliza 140 mil casos de coronavírus e quase 18 mil mortos (a mais alta taxa de letalidade no mundo) mesmo estando ainda longe de ter essa triste página de sua história superada, já reúne um conjunto bastante consistente de informações que permitem compreender como tudo isso aconteceu e, como poderia ter sido evitado.

Uma recente entrevista com o representante dos industriais lombardos, Marco Bonometti, junto a Cofindustria (Confederação Geral das Indústrias Italianas) é mais esclarecedora do que o conjunto de explicações técnicas que até o momento já foram reunidas para a compreensão da propagação do vírus na Itália e para além de suas fronteiras.

A sucessão de ações nas duas semanas contadas a partir do último domingo de fevereiro quando teve registro o primeiro caso de coronavírus na cidade de Codogno a 90 km de Bergamo foram decisivas para a escalada da doença.

Em 29 de fevereiro, reagindo a orientações vindas do governo em Roma, Bonometti falou em “danos à imagem” com a “Itália isolada” e com a zona vermelha proposta que criaria inaceitáveis “danos econômicos para as empresas”.

Na esclarecedora entrevista, diante da pergunta do jornalista sobre o elevadíssimo número de mortes em Bergamo, Bonometti respondeu que “há uma presença maciça de animais (na região) e, portanto, houve um movimento de animais que favoreceu o contágio, falo das fazendas, e isso pode ser uma causa”. Contestado na sequencia pelo jornalista que o lembrou que “os animais não são veículos de contágio” o líder dos industriais reformulou a resposta “é que essas são áreas densamente povoadas pelas indústrias e, portanto, o movimento de mercadorias e pessoas certamente favoreceu. Não dentro das fábricas, no entanto, porque as fábricas são consideradas os lugares mais seguros para nós”.

As respostas evasivas e repetição de ideias equivocadas desafiam o leitor (e perceptivelmente, também o jornalista) a identificar o quanto de cinismo e/ou ignorância sustentam a performance do referido representante dos industriais.

Ao longo da entrevista Bonometti rejeita um reconhecimento de erro e repete “Nós éramos contra fazer um fechamento tão sem sentido na região”.

À pergunta sobre a reunião ocorrida no começo de março entre empresários de Bergamo e o governador da Lombardia Attilio Fontana (do partido de extrema direita Liga) para tratar da pressão para uma decretação de zona vermelha para toda a Lombardia, Bonometti respondeu “Nós debatemos, mas áreas vermelhas não podiam ser criadas. Não foi possível parar a produção.”

E, mais uma vez fugindo de assumir a responsabilidade, Bonometti ataca “A verdade é que grande parte dessa classe política é incompetente”.

Hoje, encontram-se instaladas investigações para apurar responsabilidades pela evolução da pandemia na Lombardia, com foco nas comunas de Alzano Lombardo, Nembro e Val Seriana.

Enquanto isso no Brasil, em seu quinto pronunciamento à nação sobre o coronavírus realizado na noite de ontem (8), o presidente da República atribuiu aos governadores a “responsabilidade exclusiva” sobre a adoção de medidas de isolamento social e, em mensagem forma ambígua e maliciosa, contradizendo recente pesquisa de opinião realizada pelo Datafolha, afirmou ter certeza de que a “grande maioria” dos brasileiros quer retornar ao trabalho.

Desde o primeiro caso de coronavírus diagnosticado no Brasil o país já contabiliza 16.238 casos e 823 mortos.

Como recentemente o diretor geral da Organização Mundial da Saúde asseverou “Estamos escrevendo uma página da história não um livro de economia”.

As próximas semanas revelarão como o Brasil será lembrado nessas “páginas da história”, se pela capacidade de enfrentamento de crises e aprendizado com acumulado de experiências ou se pela irresponsabilidade de líderes políticos e empresariais, desprezando vidas humanas.

Link para a entrevista mencionada: https://www.tpi.it/economia/confindustria-lombardia-zone-rosse-in-regione-intervista-presidente-bonometti-20200407580914/?fbclid=IwAR2kos2E4SkBndUthKlBfbeka2bBOx713tDnnfPC-OF84TyZVyEKfhiQrQA

Arnaldo Cardoso, cientista político