Por Samira de Castro*

Quais os acontecimentos considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícia? Quem estuda ou estudou Jornalismo, sabe que a resposta à pergunta constitui o “Valor-Notícia”, uma das componentes dos “Critérios de Noticiabilidade” empregados no mister de quem tem a função social de informar à população os assuntos de interesse público, capazes de pautar o debate na sociedade. Quando um veículo de comunicação não segue essa lógica, algo está errado — muito errado!

Quem acompanha as redes sociais digitais brasileiras sabe que o país foi sacudido pela divulgação de uma série de reportagens do site The Intercept Brasil revelando colaboração proibida de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol na operação Lava Jato. “As mensagens secretas da Lava Jato” , título da reportagem, foi o assunto número um de dez entre dez conversas nos grupos de WhatsApp, além de ocupar os trending topics no Twitter brasileiro a partir das 18h de ontem até o amanhecer dessa segunda-feira.

Se o esquema de troca de mensagens entre o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador federal com nome de remédio rendeu nota do próprio hoje ministro da Justiça de Bolsonaro e do Ministério Público Federal do Paraná — com textos de resposta que, aliás, reconhecem a autenticidade do material divulgado pelo site de Glenn Greenwald-, era de se esperar que os chamados jornalões saíssem hoje com a suíte (repercussão) da reportagem do TIB. Mas o que fez a chamada mídia empresarial brasileira? Deu destaque a assuntos aleatórios em suas capas! Critério de noticiabilidade pra quê? Informação de interesse público pra quem?

Vamos às capas:

No O Globo, jornal da família Marinho, o maior furo jornalístico da atualidade brasileira mereceu tímida chamada de coluna (circulado de preto na imagem ao lado): “Site diz que Lava-Jato e Moro atuaram em conjunto”.Destaque infinitamente abaixo da importância do tema, uma vez que a operação da qual o ex-juiz e hoje ministro foi o responsável pelo julgamento na primeira instância em Curitiba resultou na prisão de um ex-presidente, além de, muito antes, criar na população um sentimento de anti-petismo que culminou, junto com outros fatores, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Reparem no recurso do jornalismo declaratório que O Globo usou (e também a Folha de SP, como veremos adiante): “diz site”, ou seja, impondo implicitamente um juízo de valor para descredenciar a reportagem-denúncia do TIB, como se fosse uma matéria qualquer, sem credibilidade.

O jornal da família Frias, assim como o Globo, tem chamada lateral, destacando uma das acusações mais graves da reportagem do The Intercept Brasil: a de conspiração entre procuradores lavajateiros e o então juiz Moro. Mas a Folha de SP também se utiliza do recurso de declaração do “site” autor da investigação, procurando, ao mesmo tempo se eximir de que a constatação da relação promíscua não foi sua e de descredenciar a denúncia apresentada, comprovada pelo vazamento das mensagens de Telegram trocadas entre Sérgio Moro, Dallagnol e companhia. Cabe aqui o destaque sobre Gleen Greenwald. Estamos falando do jornalista norte-americano que iniciou a publicação dos documentos denunciando os inúmeros programas de Vigilância global pela NSA americana. Os documentos foram revelados por Edward Snowden. Greenwald recebeu o Pulitzer de 2014, maior prêmio de Jornalismo da atualidade, na categoria Serviço Público, pelas matéria sobre os documentos vazados por Snowden.

Voltemos às capas. O Estadão, embora tenha dado a chamada no alto, portanto acima da primeira dobra, inverte o “valor-notícia” por completo: em vez de chamar a atenção para a gravidade das acusações mostradas no TIB, criminaliza a reportagem ao dar mais importância à reação das autoridades brasileiras a uma possível “invasão de telefones de Moro e do MP”. Quem se deu o trabalho de ler as três matérias e mais o editorial do The Intercept Brasil soube que não se tratou de invasão do site às conversas no Telegram das autoridades citadas, mas de vazamento de alguém que a elas teve acesso, por meio de fonte anônima. Aqui, cabe citar o próprio ex-juiz, ao justificar a divulgação do grampo ilegal à presidenta Dilma: “A democracia em uma sociedade livre exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras”.

Para aquelas e aqueles que, como eu, acreditam no Jornalismo — e sabem que ele é diferente de tudo o que se pratica hoje pela mídia empresarial nacional — a reportagem do The Intercept Brasil entra para a história de nossa atividade profissional. À despeito da cobertura previsível dos jornalões, da Globo, da Record e de outras emissoras de TV aberta, o TIB mostrou que o Jornalismo ainda pulsa em terra de presidente miliciano, juiz acusador e procurador-pastor que apresenta denúncia baseada em matéria de jornal — sem provas, mas com sua convicção. Resta saber se “a lei é para todos” mesmo. Porque “o mecanismo”, como se observa, é viciado, eivado de ilicitudes em nome de um anti-petismo capaz de mudar os rumos de uma nação.

*A autora é jornalista, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce) e 2ª Tesoureira da Federação Nacional dos Jornalistas