Por Altamiro Borges

Após bombástica reportagem da TV Globo contra os sinistros “Guardiões do Crivella”, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) anunciou que investigará as gravíssimas denúncias que mostram servidores da prefeitura acionados para constranger cidadãos e jornalistas em hospitais da cidade.

Em nota, o MP-RJ informou na segunda-feira (31) que abriu “o procedimento preparatório criminal para investigar possível prática de crimes que teriam sido cometidos pelo prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) pela montagem e manutenção de um serviço ilegal na porta dos hospitais municipais”.

Além de associação criminosa, o MP-RJ também avaliará a possibilidade de desvio de função do prefeito. A Globo garante que Crivella sabia do esquema e até incentivava os “guardiões” – que se parecem com os milicianos. O caso está com a Subprocuradoria-Geral de Justiça de Assuntos Criminais e de Direitos Humanos.

O esquema criminoso do prefeito

Conforme aponta a reportagem, a prefeitura montou um esquema criminoso para impedir denúncias contra o caos na saúde do Rio de Janeiro. Ele “é organizado por grupos de WhatsApp, tem escala e marcação de ‘ponto’ via selfie. Em um dos grupos, está incluído número de telefone atribuído a Crivella”.

Os tais “guardiões do Crivella” são servidores públicos – ou seja, recebem salários dos contribuintes cariocas. Em pleno expediente, eles são distribuídos por vários hospitais com o objetivo explícito de atrapalhar o trabalho da imprensa – como fica evidente nas mensagens vazadas de WhatsApp.

Entre outras provocações, eles são orientados a gritar “Globo lixo” contra jornalistas. A reportagem aponta Marcos Paulo de Oliveira Luciano, que recebe salário de R$ 10,5 mil, como chefão do bando. Ele é assessor especial do prefeito. Tanto Marcos como vários outros “guardiões” aparecem em fotos com Marcelo Crivella.

Segundo um delator da ação criminosa, “o sistema todo é chefiado pelo doutor Marco Luciano. Ele é um amigo do Crivella. É o chefão geral, tá? Não sei se ele é parente, se é da Igreja Universal, não sei, não, mas sei que ele é muito chegado. É uma pessoa de extrema confiança do prefeito Crivella”.

Prefeito-pastor sofrerá impeachment?

Diante da denúncia, o sinistro prefeito – influente pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, que é dona da TV Record – rechaçou a acusação da emissora rival. Em nota, ele não negou a criação dos grupos, mas jurou que apenas reforçou o atendimento para “melhor informar a população” e “evitar riscos à saúde pública”.

Caberá ao MP-RJ esclarecer o caso. Se for confirmada a utilização de servidores públicos para o trabalho sujo de “guardiões” – ou milicianos –, caberá até processo de impeachment contra o prefeito-pastor. Reproduzo abaixo a nota de repúdio assinada por Paulo Jeronimo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI):

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A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) denuncia mais um atentado contra a democracia por parte do prefeito Marcelo Crivella. Em ações orquestradas, funcionários da prefeitura tentam intimidar, com agressões verbais e ameaças de agressões físicas, jornalistas que trabalham em reportagens sobre a situação de calamidade dos hospitais públicos no Rio. As ameaças se estendem aos usuários que prestam depoimentos sobre o mau atendimento.

Episódios ocorridos nas portas de vários hospitais municipais nos últimos dias mostram que não estamos diante de fatos isolados, mas de uma política do prefeito para constranger repórteres e cidadãos. A ABI reafirma seu compromisso com a liberdade de expressão e deixa claro que irá às últimas consequências para defender esses princípios. Não aceitaremos que o prefeito Crivella tente violentar a democracia e impeça o trabalho da imprensa.