Os amigos e familiares sepultaram ontem no Cemitério Municipal o corpo do engenheiro e ex-cônsul da Síria para o Paraná e Santa Catarina, Abdo Dib Abage.

Durante todo o dia de ontem a igreja ortodoxa São Jorge, na rua Brigadeiro Franco, esteve lotada por amigos e familiares que foram prestar a última homenagem a um dos curitibanos mais ilustres da nossa história recente.

Abdo Dib Abage foi Cônsul Honorário da Síria para o Paraná e Santa Catarina no período de 1987 a 2017.  Foram 30 anos de trabalho honrado e dedicado aos imigrantes sírios que escolheram o Brasil como pátria.  O pai de Abdo, Nassib Abdo Abage, também foi Cônsul da Síria e havia recomendado ao filho que seguisse em seu trabalho. Após o falecimento do paí, Abdo relutou bastante porque tinha muito trabalho como engenheiro e na construção de empresas da família a Irmãos Abage, uma das mais tradicionais em revenda de materiais elétricos, hidráulicos e de iluminação.

Durante algumas visitas que fiz ao Cônsul Abdo Abage no consulado, entre um café e outro, ele contou que o Embaixador da Síria em 1986 insistia muito para que ele assumisse o cargo de Cônsul, mas ele recusava. Somente quando líderes da colônia síria em Curitiba o visitaram e fizeram um pedido formal, ele decidiu aceitar o cargo. “Mesmo sabendo que isso traria prejuízos financeiros, pois eu estava no auge das atividades profissionais, aceitei porque o pedido era da colônia formada pelos meus amigos, conhecidos e familiares. E havia também o pedido do meu pai. Como poderia recusar?” perguntava Abdo.

E nesses 30 anos que ele esteve à frente do Consulado suas previsões se concretizaram. A sede do Consulado era em uma de suas propriedades, uma belíssima e ampla casa colonial. Dois anos atrás, durante visita do Embaixador da Síria a Curitiba, ele me disse durante uma visita ao Consulado em Curitiba: “Este é o mais bonito Consulado da Síria em todo o Brasil”.

O Cônsul Abdo Abage financiava do próprio bolso a maioria dos eventos promovidos pelo Consulado, e apoiava financeiramente publicações e eventos em defesa da paz na Síria.

No ano de 2012, quando a guerra à Síria assumia proporções gigantescas, com milhares de mercenários – vindos de 108 países – invadiram a Síria, financiados pelos governos dos EUA, Israel, França, Inglaterra, Catar e Arábia Saudita, Abdo Abage fazia palestras em escolas, faculdades e universidades falando a verdade sobre a guerra à Síria, que tratava-se de uma guerra por motivos meramente econômicos para tentar mudar a geopolítica local. Uma guerra para retirar a Rússia do comércio de gás e petróleo na região e beneficiar os EUA e Israel, às custas do sangue e destruição de parte da população síria.

Sobre sua atuação como diplomata, a ex-cônsul do Uruguai, Leda Neli da Silva Pedrosa Borges, falava que “Abdo Abage é um dos homens mais educados e cultos que conheci na vida”. E ela tinha razão. A educação e a cultura de Abdo Abage eram impressionantes, qualidades marcantes de uma personalidade onde se destacavam a coragem, generosidade e bondade.

Em uma de nossas visitas ao Consulado, ao lado do tradutor e escritor Youssef Mousmar, um dos nossos amigos disse ao Abdo que alguns movimentos políticos gostariam de pedir ao presidente Bashar Al Assad que o nomeasse Embaixador da Síria no Brasil, para fortalecer a luta pela paz na Síria. Abdo sorriu e disse: “Não façam isso. Passei dos 70 anos de idade e pretendo descansar. Já dei minha contribuição à causa síria”. Mas a frase ficou no ar porque mesmo após se retirar da vida diplomática Abdo Abage fazia planos de continuar defendendo suas ideias e pensamentos políticos. Durante alguns almoços nos últimos meses estávamos trabalhando no projeto de criação de um site com o título “Falando com Abdo Abage”,  onde ele responderia a perguntas dos leitores e publicaria semanalmente artigos políticos. Foi um guerreiro até o último dia.

A morte prematura de Abdo Abage pegou de surpresa a todos porque ele era um homem que se preocupava com a saúde, fazia exercícios físicos com regularidade. Os amigos me contaram que a morte foi por um acaso, uma infecção interna que generalizou. Em poucas horas ele veio a falecer. Ontem, na igreja São Jorge, centenas de pessoas prestaram homenagens e acompanharam o féretro ao cemitério.  Pelo número de pessoas e expressões dos presentes, ficou comprovado que Abdo Dib Abage foi um homem muito querido e amado por todos que o conheceram.

José Gil