O marechal Khalifa Haftar fala sobre diversos assuntos, entre eles o futuro da Líbia após a tomada de Trípoli

Entrevista concedida pelo marechal Khalifa Haftar ao jornalista Isa Abdul Qayum para o Al-Marsad e Libyan Address.

Tradução: Movimento Democracia Direta do Paraná, Brasil

Diante dos últimos acontecimentos militares na Líbia, viajei para Rajma, a sede do comando geral do exército nacional da Líbia (LNA), onde está o escritório de um dos homens mais importantes da Líbia hoje, o Marechal de campo Khalifa Haftar. Eu o encontrei, como de costume, ocupado com receber e atender seus convidados; convidados de todos os tipos de tendências e nacionalidades. Ele me acolheu, e nós mergulhamos em uma entrevista, sem introduções, abordando quase todos os temas. Ele estava às vezes ouvia, às vezes perguntava, e respondia com franqueza absoluta.

Ele apontou para uma cadeira ao lado dele, ordenou um café. Sentei-me e tirei o meu caderno de notas. Ele parece ter antecipado a primeira pergunta trazendo um relatório da união Europeia e me entregando uma cópia. O relatório expressou preocupações sobre a relação de Faiz Sarraj e seu governo com milícias, e a infiltração de suas forças por pessoas e líderes acusados de terrorismo e tráfico de seres humanos. O relatório lamentou o seqüestro da tomada de decisão da GNA (Governo de Acordo Nacional liderado por Faiz Sarraj) por dois grupos: homens de negócios corruptos e a Irmandade Muçulmana. O relatório Europeu aconselha cuidado com maior envolvimento com Sarraj, em razão da futilidade de tal aliado. Guardei o relatório, e a entrevista teve início:

 

Marechal de campo, comecemos com este relatório. Você está contando com o apoio da União Europeia nesta fase atual?

Marechal Haftar – Em primeiro lugar, contamos com os esforços dos nossos próprios soldados e oficiais, e com o apoio do povo Líbio, que nunca nos faltou, desde o início da nossa guerra ao terror, e os nossos esforços para recuperar a nossa nação. No entanto, a posição europeia continua a ser importante para nós. Talvez a nossa veracidade em lidar com eles, e o que eles vêem no terreno real, é o que os motivou a escrever tal relatório. Queremos que compreendam o desejo do povo líbio de mudar a sua realidade e de sair desta crise. Essa mudança começa com a guerra contra o terror, o desmantelamento das milícias e o término desta fase da autoridade sequestrado por Sarraj, que carece da devida autorização do povo.

 

A solução seria através apenas da operação militar ‘dignidade Hurricane’, recentemente lançada?

Marechal Haftar – Não, a solução deve ser através da política, e com a participação de todos os líbios. A operação militar tem como objetivo atacar as realidades inexecráveis que não puderam ser abordadas por nenhum outro meio. Tais realidades incluem combater a presença e disseminação de líderes terroristas, e suas atividades de recrutamento através de células dentro de Trípoli, a presença e difusão de milícias, e seu controle sobre os fundos que pertencem ao povo líbio no banco central da Líbia, bem como a sua prática de roubo de rodovias, sequestros, chantagens, o cultivo de atividades por grupos criminosos, gangues do crime organizado que fazem comércio de seres humanos, e o contrabando de petróleo e combustíveis, e também a presença de grupos de islamismo radicalizado para sabotar a vida política e estragar a sua atmosfera democrática, e até mesmo implementar agendas estrangeiras que conflitam com os interesses do povo líbio.

Esta é a parte que pretendemos com a nossa operação militar; qualquer outra coisa, o povo líbio vai encontrar soluções através do diálogo e discussão, através de meios pacíficos, políticos e democráticos.

 

Falando sobre a opção militar, eu sei que é difícil pedir detalhes de operações militares em curso, mas em geral, como as coisas estão indo nas frentes de luta em Trípoli?

Marechal Haftar – A situação é excelente. Peço ao povo líbio que não preste atenção aos rumores que afirmam que podemos retirar-nos, ou mesmo pensar em parar nesta fase. As operações militares não vão parar antes de realizarmos todos os nossos objetivos. A moral do exército é alta, e seus líderes sabem muito bem que eles estão realizando um grande e histórico dever nacional. Eles têm ordens claras e francas. Eles sabem que a Líbia está em perigo, e que não há recuo do dever de salvá-la.

Nossos combatentes tem espírito de luta de confiança em Deus, e apoio do povo líbio em todas as suas cidades, tribos, lideranças e instituições. Depois de terminar a tarefa militar em Trípoli, estes homens estarão dedicados à proteção de nossas fronteiras, costas e espaço aéreo. A atmosfera para a atividade política, com todos os seus detalhes, será mais favorável. Tal trabalho e discurso terão, então, melhores circunstâncias para o sucesso. Isso contrasta com a circunstância dos oito anos precedentes. A operação militar resultará na remoção dos fatores que levaram ao fracasso da opção política, e que levou a todas as catástrofes econômicas, sociais, jurídicas e de segurança.

 

É possível prever o que vem depois da libertação de Trípoli, e a conclusão da tarefa militar em curso?

Marechal Haftar – De um modo geral e natural, entraremos num período transitório que é, desta vez, claro e disciplinado. É importante que, durante este período transitório, sejam realizadas várias tarefas básicas, a fim de preparar o terreno para a fase seguinte. Por exemplo, o desmantelamento de todas as milícias, desarmando-as e dando garantias àqueles que cooperam a esse respeito. O desmantelamento de todos os organismos gerados pelo acordo Skhirat, que não só expirou e falhou em encontrar qualquer saída da crise, mas na verdade criou várias outras crises.

 

Seria algo parecido com o Plano Marshall, preparar o terreno para a fase permanente?

Marechal Haftar – Quero dizer, preparando-se para uma fase que é permanente e normalizada, e sobre a qual o estado pode estabilizar, para que ele possa lançar na reconstrução, desenvolvimento, e a remoção dos detritos de longos anos de estagnação.

Entre as tarefas de tal fase estão a formação de uma nova Comissão Constitucional, e uma proposta de lei do referendo, reequilibrando o setor petrolífero e suas receitas, abordando os desafios enfrentados pelas pessoas, e tornando suas vidas mais fáceis, e especialmente abordando o crise de liquidez, e iniciando a unificação e gestão adequada das instituições estatais, depois de anos de diversidade caótica causada pelo GNA através de sua luta ilegal pelo poder, renegando os compromissos firmados, por ser manipuladas por milícias de antes e depois da operação terrorista ‘Fajr Líbia’ que foi lançada pela Irmandade Muçulmana. O mundo inteiro agora sabe que foi essa operação que dividiu as instituições do estado, e levou às catástrofes que a Líbia tem sofrido.

 

O pilar principal será um governo de unidade nacional que será encarregado de ordenar a nossa casa e preparar-se para a fase permanente, de acordo com uma opção democrática que culmina em uma constituição e eleições livres?

Marechal Haftar – Sim, é precisamente isso que quero dizer. Teremos uma fase transitória que será gerida por um governo de unidade nacional que começará imediatamente a trabalhar na libertação de Trípoli. E se, por quaisquer razões de segurança e logística temporária, ele tenha dificuldades, ele também pode começar a trabalhar a partir de qualquer outra cidade como Benghazi, ou qualquer outra cidade estável e segura no ocidente, leste ou sul, até Trípoli estar pronta. Como você sabe, nós não discriminamos cidades ou regiões. Lutamos por uma única e unificada Líbia.

 

Há pessoas que levantam dúvidas sobre as intenções do exército em relação a tais ideias?

Marechal Haftar – Eles devem primeiro levantar dúvidas sobre aqueles que destruiram a democracia usando armas (GNA), e voltaram ao poder através das milícias de ‘Fajr Líbia’, devidamente designado como terrorista pelo Parlamento. Eles ocuparam a capital e impuseram um governo com a força de armas.

É mais apropriado para essas pessoas levantar dúvidas sobre o conselho presidencial que se recusou a entregar a autoridade após o acordo Skhirat, que expirou três vezes, e após a aprovação de muitos julgamentos judiciais contra ele e contra seus decretos, porque não tem estatuto jurídico, e sua aliança com milícias para permanecer no poder.

Eles devem levantar dúvidas sobre aqueles que capacitam grupos terroristas e milícias oferecendo paraísos e dinheiro, e permitir-lhes destruir o estado e suas instituições. Quanto ao exército, é o mesmo exército que protegeu as últimas eleições em 2014, e que se comprometeu em todas as iniciativas internacionais sobre novas eleições. O exército é aquele que garantirá e protegerá o estabelecimento do novo estado líbio, se Deus quiser. Não é o exército que não cumpriu seus compromissos em relação às eleições que deveriam ter acontecido em 2018, e que foram então adiadas para o início de 2019. Não, foi o Conselho presidencial que reteve o financiamento da Comissão eleitoral, de acordo com as declarações do próprio presidente, e que também não conseguiu protegê-lo e permitiu que ele fosse destruído por terroristas. Também obstaculizou a lei do referendo, e criou predicamentos difíceis em relação às fundações constitucionais. Em outras ocasiões, ele usou a desculpa das circunstâncias de segurança, e uma série de outras desculpas que inventaram.

As eleições foram a nossa demanda desde o início, e nós concordamos com eles, e exigimos as eleições nas reuniões de Abu Dhabi I e II, em Paris I e II, e em Palermo, Itália, como uma solução para a crise de legitimidade. Esta foi a demanda da maioria dos líbios, como por sondagens de opinião. Mas, o que aconteceu? O que aconteceu é que este governo que considerávamos como um governo comprometido com o acordo nacional, voltou-se para suas milícias, referendando o “Conselho Estadual” (controlado pela Irmandade Muçulmana, recentemente classificado pelo Parlamento como organização terrorista) foi, e renunciou a tudo o que tínhamos acordado. Em resumo, eles impedem o processo de pacificação e unidade nacional usando todos os tipos de desculpas caóticas e inaceitáveis.

 

Através de algo parecido com o Plano Marshall será possível convencer a posição internacional? Como você o vê, ou como você o avalia, à luz do controle do exército sobre a maioria do território líbio, e a segurança do petróleo, e a extensão do apoio popular que recebe?

Marechal Haftar – A postura internacional é em grande parte favorável ao

Exército Nacional Líbio (LNA), direta e indiretamente. Aqueles que não nos apoiam enviaram garantias de que compreendem a postura do exército e seus movimentos. Por outro lado, falamos francamente sobre as nossas ideias para a fase após a libertação de Trípoli, que é sempre um assunto de discussão com personalidades e tribos líbias. Vemos que estas são boas ideias que não estão em conflito com o interesse comum destes países com a Líbia e não os obstruem de forma alguma. Pelo contrário, eles se cruzam positivamente de maneiras que servem o interesse de nossos povos e de nossas nações, que preservam a soberania, e que aprofundem as relações oficiais, populares e econômicas.

 

E a posição regional, especialmente a dos países vizinhos?

Marechal Haftar  – Além disso, a posição regional é excelente. Além das relações especiais com o Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Tunísia e Chade, Níger, observamos importantes desenvolvimentos em nossas relações com a Argélia e o Sudão. Acreditamos que, dia após dia, eles começaram a entender a natureza dos movimentos do exército, e sua contribuição para apoiar as pessoas em sua luta para sair da atual situação sufocante para uma fase transitória, e depois para uma fase permanente que terminará com todo o sofrimento, se Deus quiser. Isto é o que você vai ver em breve, após a libertação de Trípoli. Da mesma forma, desejo a estabilidade do Sudão e da Argélia durante este período crítico.

 

Existem algumas personalidades de países vizinhos, como os líderes do movimento Nahda tunisiano, que falam de forma provocativa e inflamatória sobre o controle de Trípoli pelo exército. Na sua opinião, por que fazem isto?

Marechal Haftar  – Em primeiro lugar, o que o exército está fazendo é uma questão puramente interna da Líbia. Definitivamente não permitiremos interferência externa que viole o princípio da soberania nacional. Personalidades como as que você menciona nem sequer representam seus próprios países ou povos, e são simplesmente partidários de agendas estrangeiras hostis à Líbia. Eu acredito que as preocupações, quando presente, derivam de temer a fuga de terroristas e criminosos de Trípoli para alguns países vizinhos, assim como centenas de terroristas e rebeldes escaparam de tais países em estágios anteriores e mataram centenas de líbios através de operações suicidas e combates em Benghazi, Derna, no sul, e outras cidades e regiões da nossa terra.

Aqui, enfatizo que a melhor forma para a remoção de tais medos é a cooperação direta com o exército nacional da Líbia e as agências de segurança da Líbia, a fim de acabar com as ameaças de segurança pautadas por tais grupos para a segurança da nossa região. Este é um interesse comum para todos aqueles que entendem o conceito de segurança. Somos vizinhos e parentes, e entre nós há fortes relações e acordos sólidos que podem ser invocados a fim de remover todas as preocupações e confusões exageradas. Em vez disso, devemos ter um trabalho comum para o benefício de nossos povos, e contra o terror apenas.

 

Você viu a iniciativa proposta por Faiz Sarraj ultimamente?

Marechal Haftar – Eu não acredito que ele tem algo a dizer. Ele é um homem abalado, e sua decisão não está em suas mãos. Tenho experiência em lidar com ele, vindo a conhecê-lo bem ao longo dos últimos anos, e eu falei com ele diretamente, como você sabe. Realmente, ele não sabe o que quer, e não é capaz de assinar qualquer acordo. Ele sempre inconscientemente passa a impressão de que está aterrorizado por algo desconhecido, intensamente; algo indescritível.

Enfim, a iniciativa, além de faltar qualquer seriedade e quaisquer cláusulas que abordam as causas da crise, não pertence realmente a Sarraj, mas é meramente um eco do discurso repetitivo de Ghassan Salame. As iniciativas não têm sentido a menos que sejam corajosas e tenham cláusulas claras que abordam as causas da crise e suas próprias raízes. Portanto, sua iniciativa não é de valor e nossa resposta a ela é a mesma que demos Salame anteriormente.

Repito, não somos contra as soluções políticas, nem contra o processo democrático, nem contra as eleições. Pelo contrário, vemos as eleições como o melhor caminho a seguir, como em todos os países do mundo. O ABC da democracia é arbitragem exclusivamente através da urna, não a arbitragem através de um suposto “consenso” que foi imposto forçosamente sobre os líbios nos lobbies de hotéis. Acreditamos que todos esses valores e instituições de um estado civil e moderno não podem viver na sombra do controle terrorista e grupos como a Al Qaida, LIFG, a Irmandade Muçulmana, milícias e gangues de crime organizado, contrabando, tráfico humano, sequestros e predadores dos fundos públicos.

Após a libertação de Trípoli, abordaremos diretamente o povo líbio sobre todas essas questões. Colocaremos as coisas no caminho certo, uma rota que sirva aos interesses da Líbia e dos líbios, e que preserva a unidade do seu território e a coesão do seu povo, e que recupere a sua riqueza, que é atualmente contrabandeada aos milhões por terra, ar e mar, nas mãos de gangues liderados por fugitivos internacionais e locais. A propósito, essas pessoas constituem a maioria daqueles contra quem lutamos hoje em Trípoli. Este não é um segredo, e é bem conhecido para as Nações Unidas e comunidade internacional.

 

Você mencionou o Dr. Ghassan Salame, o representante do secretário geral das Nações Unidas. Como é o seu relacionamento com ele?

Marechal Haftar – Em geral, eu o respeito e valorizo-o, pois ele é um nacionalista árabe culto. No entanto, ultimamente, sua informação parece truncada e ele não dá ao exército o seu devido valor, mesmo fornecendo a ele qualquer informação em total abertura. Seus relatórios ao Conselho de Segurança e alguns dos relatórios confusos de sua missão fazem-nos acreditar que cooperar com ele não nos traz nenhum benefício.

No entanto, durante nosso último encontro, ele negou relatos de seus discursos, e afirmou que eles foram retirados do contexto, e que ele vai trabalhar para esclarecer algumas questões pendentes. De minha parte, eu disse que ainda estou esperando que a cooperação entre nós possa continuar e se desenvolver para resolver a crise.

 

Eu sei o quão agitada é a sua agenda, e eu tentei ser breve, tanto quanto possível, no entanto, há alguns dias, eu estava em uma visita à cidade de Ghat. Achei que estava em um estado desastroso. Encontrei as pessoas sofrendo. Eles me pediram para transmitir a mensagem de que sua cidade é uma das principais portas de nossa pátria, e eles estão pedindo mais atenção para eles e sua região.

Marechal Haftar  – Em primeiro lugar, agradeço a Deus por proteger a cidade de maiores calamidades após as inundações sofridas. Eu emiti ordens para que a população local fosse auxiliada, e essas ordens foram implementadas. Talvez você tenha visto os comboios de mantimentos que enviamos para seus acampamentos no deserto. Este é o nosso dever, sem se vangloriar. Exortamos as autoridades executivas a acelerar essa ajuda. Creio que o governo de transição está seriamente empenhado em oferecer o que pode ao nosso povo. Lá, também cooperamos com o governo para garantir os comboios de ajuda, por terra e ar. Nossas operações em Trípoli não nos distraem de prestar atenção a esta região de nossa pátria no extremo sudoeste.

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Encerrando a entrevista, agradeci ao marechal Haftar por me conceder o tempo e por sua franqueza. Eu guardei meus papéis e parti, com uma promessa de que nos encontraremos novamente em breve para prosseguir com o diálogo. Sempre que encontro pessoas na rua, elas expressam o desejo de saber mais detalhes sobre o que está acontecendo, e o que acontecerá na Líbia. Sem dúvida, o povo líbio está contando com uma transformação que só o exército é capaz: acabar com o caos, as milícias, os grupos terroristas, e gangues, e preparar a Líbia para a fase de estabilidade e transição para o estado de direito através de eleições transparentes, e uma Constituição Civil justa, de modo a alcançar o sonho de uma vida estável e razoavelmente próspero, com segurança, em que a cultura possa prosperar, e em que as rodas da economia e do desenvolvimento posam girar. Encontramo-nos em breve.

Por Isa Abdul Qayum