Por Hédio Júnior

“Quem é que tem direito? Ainda mais na justiça do trabalho?” O questionamento, que já vem carregado com a resposta, é da deputada federal Cristiane Brasil, do PTB do Rio de Janeiro. Com roupas de banho e ladeada por quatro homens descamisados, a parlamentar gravou um vídeo no último final de semana mandando um recado àqueles que rechaçam a sua nomeação como ministra do trabalho. Ao fundo, o mar e uma música eletrônica. E a pergunta: “o que passa na cabeça de quem entra na justiça contra a gente?”

Cristiane Brasil foi anunciada em 3 de janeiro à nova ministra do governo Temer. Cuidaria da pasta que trata dos direitos e interesses do trabalhador. Acontece que a parlamentar tem nas costas nada menos que dois processos por dívidas trabalhistas. Estimulada por um dos amigos, ela garante que não sabia ter errado nas relações contratuais questionadas pelos ex-funcionários. “Eu juro pra vocês, eu juro pra vocês, que eu não achava que eu tinha nada pra dever pra essas duas pessoas que entraram contra mim. E eu vou provar isso, em breve”, diz ela na gravação.

Cristiane então é apoiada por dois dos quatro homens que estavam com ela, e que saem em sua defesa. “Eu tô com você, doutora”, diz o que segura a câmera. E o outro completa. “Eu posso dar uma declaração aqui: nós vivemos isso como empresário. Ação trabalhista toda hora a gente tem”. O primeiro então emenda. “Todo mundo pode ter. Eu tenho, ele tem, qualquer um pode ter.”

Acontece que Cristiane não é só ré de duas ações. Foi, inclusive, condenada em uma delas a pagar R$ 60 mil a um ex-motorista. O caso da ministra que é sem nunca ter sido foi parar no Supremo Tribunal Federal. Depois de perder em outras instâncias e conseguir garantir a posse no Superior Tribunal de Justiça, a chance de finalmente chegar à Esplanada foi novamente suspensa, agora pela presidente Carmén Lúcia, durante o plantão. A corte deverá julgar o caso em plenário ao voltar do recesso, a partir da próxima quinta-feira.

Ao finalizar o vídeo, a deputada, então, levanta um novo questionamento. “Eu só quero saber o seguinte: quem que pode passar na cabeça das pessoas que entram contra a gente em ações trabalhistas?”

O vídeo foi visto no Palácio do Planalto como desastroso. E poderia ser o tiro no pé que faltava para dar um fim a esse imbróglio que se arrasta por quase um mês. Mas o presidente Michel Temer precisa do PTB. Deve favores ao presidente do partido Roberto Jefferson. E por conta do seu pragmatismo, deve manter o nome de Cristiane como ministra.

Pivô do mensalão e caçado em 2005, Jefferson é pai de Cristiane. E não topa ceder a essa queda de braço com a justiça e indicar outro nome do partido no lugar da filha. O que a tiraria dessa linha de fogo. Em nota, Cristiane Brasil afirmou que “a gravação e a divulgação do vídeo foi uma manifestação espontânea de um amigo, utilizada fora do contexto”. E disse reiterar “o seu respeito à Justiça do Trabalho e à prerrogativa do trabalhador reivindicar seus direitos”.