HP – O brigadeiro Ércio Braga, ex-presidente do Clube da Aeronáutica e criador do “Movimento de Restituição do Brasil para os Brasileiros”, recebeu a equipe da Hora do Povo na tarde de terça-feira, em seu apartamento, no Rio de Janeiro.

Ele se mostrou muito satisfeito em poder falar com a imprensa sobre um tema tão importante como a Embraer e afirmou o seu respeito e admiração pelo papel da mídia no país: “Principalmente uma imprensa que busca a verdade, seja ela qual for, e que não deturpa os fatos”.

Ércio Braga disse que tem muito orgulho de ter sido uma das testemunhas oculares da inauguração da Embraer, em 1969. Ele afirmou que “a empresa de aviação brasileira deixou de ser apenas um sonho dos brasileiros e se transformou numa realidade de sucesso e competência”.

“Se existe uma obra que os engenheiros do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) fizeram e que sintetiza o trabalho desses engenheiros, essa obra chama-se Embraer“, destacou.

O brigadeiro mostrou sua preocupação com o futuro da empresa, considerando que reportagens como esta que o HP está fazendo “são muito importantes para que os brasileiros possam ter um conhecimento melhor sobre a história desta empresa brasileira de sucesso, que se tornou a maior empresa nacional de tecnologia avançada – e totalmente inserida no mercado internacional”.

A discussão sobre o papel estratégico da Embraer para os planos de desenvolvimento do Brasil se acentuou nos últimos meses, após a decisão, tomada pela direção da empresa, apoiada pelo governo Bolsonaro, de aceitar sua venda para a concorrente americana, a Boeing.

Pela decisão, a empresa norte-americana ficará com 80% das ações da nova holding, uma joint venture entre as duas, e a Embraer ficará com apenas 20%.

A decisão final coube ao governo, que possui direito de veto, através da posse de uma “ação ordinária de classe especial”, também conhecida como “golden share” (artigo 9º do Estatuto Social da Embraer), quanto a qualquer transferência de controle acionário da empresa.

Com sede em São José dos Campos, no interior de São Paulo, a Embraer é hoje a terceira maior fabricante de jatos do mundo, atrás apenas da Boeing e da Airbus, com um faturamento anual de US$ 6 bilhões, projetando e construindo aviões militares, comerciais, executivos e agrícolas.

O brigadeiro Ércio Braga, engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica, manifestou reservas em relação à venda da empresa brasileira de aeronáutica para a Boeing.

Sua avaliação é a mesma do professor de Engenharia Aeronáutica do ITA e Aviador da Força Aérea Brasileira (FAB), Wagner Farias da Rocha, que, em audiência pública, realizada em setembro de 2018, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), denunciou que a venda da Embraer, nas condições já então propostas, poderá fazer “o Brasil retroceder ao estágio tecnológico de 1950” (v. HP 30/06/2019, “Venda da Embraer à Boeing faz Brasil retroagir à década de 1950”, diz professor do ITA).

Segundo o brigadeiro, a Embraer se mostrou superior e suplantou todas as concorrentes na comercialização de aeronaves com até 150 lugares:

“A Embraer só não matou a Boeing porque essa é uma empresa muito grande e tem muito apoio de seu governo”, observou Braga.

“Os números mostram que a Embraer superou a Boeing em vendas. A Embraer vendia mais aviões, até uma determinada categoria, do que a Boeing – e, então ela começou a incomodar”, acrescentou o militar. “As concorrentes ficaram muito irritadas com a competência da Embraer porque esse é um mercado muito competitivo”.

Segundo dados disponibilizados pelo professor Wagner Farias da Rocha, em seu depoimento no STF, os modelos 190, e depois o 195, fabricados pela Embraer em 1997 e 2010, respectivamente, venderam quase o dobro de todos os concorrentes, expulsando do mercado o 737/600 da Boeing, e também o 717 e o 318 da empresa americana.

O brigadeiro Ércio Braga frisou que “a Boeing, como uma multinacional, e o governo americano, não aceitam isso”, enfatizando que “eles querem se manter a qualquer custo como hegemônicos nas vendas de aviões”.

“Querem ser eternos. Não largam o poder nunca, de jeito nenhum, para ninguém. Não têm princípios, não interessa religião, não há nada que os faça mudar. Tudo se transforma em instrumento de guerra. Na hora que interessa, eles usam esses instrumentos porque querem ficar na frente”, disse o brigadeiro.

Braga lembrou ainda que “a Embraer, ao que se propôs, estava indo muito bem. Eu não tenho dúvida que ela deveria continuar como uma empresa brasileira. Essa associação com a Boeing vai encher São José dos Campos de americanos. Eles vão ocupar tudo. Foi assim no mundo inteiro”.

O brigadeiro assinala que “a venda para a Boeing poderá trazer também prejuízos para os projetos militares brasileiros, particularmente na continuidade do KC 390, que é um cargueiro desenvolvido pela empresa brasileira, e que já conta com encomendas por todo o mundo”.

Braga lembrou que um coronel americano disse a ele, anos atrás, quando ainda estava na ativa, que o avião Tucano, aeronave turboélice de ataque leve e de treinamento avançado fabricado pela Embraer, era o melhor avião de todos, nessa categoria. Porém, disse o militar norte-americano, apesar disso, a Força Aérea Americana não compraria o Tucano.

“E não comprou”, declarou o brigadeiro Ércio Braga. “Deu preferência a uma porcaria de avião produzido por uma outra empresa americana”.

Braga confirma a avaliação da superioridade da Embraer na área comercial e acrescenta mais informações sobre o moderno cargueiro desenvolvido no Brasil:

“O KC 390 [da Embraer] é o substituto natural do C-130 [o Hercules, da norte-americana Lockheed], no qual eu voei muito e que conheço bem. O KC 390 é o avião do século XXI. Os americanos vão reconhecer isso? De jeito nenhum. Eles têm C-130 aos milhares pelo mundo à fora e não vão querer perder isso”, afirmou o brigadeiro Ércio Braga.

“O Brasil não deve se sujeitar a isso”, enfatizou o militar. “As compras do governo são fundamentais para projetos como esse. A Aeronáutica comprou 100 Bandeirantes, quando este foi lançado. Nem sei se precisava de tantos, mas foi fundamental. O Brasil investiu na Embraer, através do governo”, lembrou Braga.

“Nenhuma indústria aeronáutica sobrevive sem total apoio do governo”, defendeu o brigadeiro. “Esse governo atual dificilmente faria isso. Não tem coragem de enfrentar o poderio americano”, concluiu.

SUCESSO

A avaliação do brigadeiro Ércio Braga é confirmada pelos números das vendas da Embraer, comparados aos das concorrentes – inclusive a Boeing.

Como mencionou o engenheiro aeronáutico, aviador da FAB e professor do ITA Wagner Farias da Rocha, a Boeing só vendeu 58 unidades de seu modelo 737/700 e a Airbus só vendeu 56 aviões 319/Nelson.

A aeronave da Embraer que concorria com esses modelos da Boeing e da Airbus vendeu quase o dobro de todos eles juntos. “Isso acontece”, segundo o professor, “porque, comparado com a aeronave da Embraer, esses aviões são ineficientes”.

“Nós estamos vencendo na engenharia”, destacou Rocha, em total consonância com o orgulho demonstrado por Ércio Braga, quando o brigadeiro destaca a competência e a superioridade tecnológica da Embraer.

“Não se fala mais em acessar as imensas tecnologias da Boeing. Não é isso o que está em jogo. Nós dominamos a técnica de produção aeronáutica. Isso é o domínio do estado da técnica”, disse Rocha. “Não é mais verdade que só o que vem de fora é melhor. Não é assim, e os números de aviões vendidos comprovam isso”, afirmou o engenheiro.

Ércio Braga e o professor Farias da Rocha têm a mesma avaliação de que, ao contrário do que diz o memorando divulgado pela Boeing e Embraer, não será apenas a divisão comercial da Embraer a ser absorvida pela Boeing, mas também o setor de Engenharia, que fica em São José dos Campos.

Farias da Rocha aponta que a empresa a ser formada é, na verdade, uma falsa joint venture, ao contrário do anunciado, pois transfere os principais ativos da Embraer para a concorrente Boeing. A empresa afirmou que a operação envolvia a aviação comercial, mas, de fato, estão sendo transferidas as unidades de engenharia. Sem a engenharia, o Brasil dificilmente conseguirá manter os projetos e o desenvolvimento de aeronaves.

“A Embraer que sobrou não conseguirá desenvolver aeronaves, modelos de tipos certificados nem tem engenharia de base para suporte de serviços, modificações e alterar projeto”, disse o professor do ITA.

O coordenador do Laboratório de Estudos das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa da Unicamp, professor Marcos José Barbieri Ferreira, também destacou, em recente entrevista à revista Carta Capital, que “a operação entre Boeing-Embraer, oficialmente denominada como uma parceria estratégica, na realidade resume-se a duas operações que envolvem aquisição de negócios da Embraer pela Boeing”.

A mais importante delas relaciona-se à aquisição dos negócios de aviação comercial da Embraer pela Boeing. Nesta operação, a Boeing adquire 80% do capital e, além disso, assegura para si o integral controle estratégico, operacional e administrativo dos negócios de aviação comercial da Embraer. Ele adverte, também, para as dificuldades que o projeto do KC 390, o melhor transporte militar do mundo – como frisou o brigadeiro Ércio Braga – terá com a venda da Embraer.

Todo o negócio de aviação comercial da Embraer, que vem respondendo por cerca de 58% das receitas e 90% dos lucros da companhia será cindido e, segundo o professor Barbieri Ferreira, se tornará uma subsidiária sob total controle da Boeing.

Assim como o brigadeiro Ércio Braga, Barbieri também considera que, dificilmente, a Embraer poderá manter seu projeto militar do KC 390, sem a área comercial e os executivos da empresa.

SÉRGIO CRUZ

“Venda da Embraer à Boeing faz Brasil retroagir à década de 1950”, diz professor do ITA

O professor de Engenharia Aeronáutica do ITA e Aviador da Força Aérea Brasileira (FAB), Wagner Farias da Rocha, fez uma contundente denúncia, embasada, segundo ele próprio, em argumentos eminentemente técnicos, sobre o grave crime que representa para o país a venda da Embraer para a norte-americana Boeing.

Para ele, o “negócio” não significa a criação de nenhuma Joint Venture, mas sim um plano consciente de destruição, por parte da Boeing, de uma empresa concorrente nacional que vinha, por sua alta capacidade tecnológica, tomando cada vez mais seus espaços no disputado mercado de aviação mundial.

Ele alertou que, com a transferência, “o Brasil vai perder a capacidade de projetar aviões, retroagindo ao estágio tecnológico que tinha na década de 1950”. “Esse ponto de vista estou apresentado por dever de consciência, como cidadão brasileiro, sem nenhum vínculo com qualquer organização pública ou privada”, afirmou o professor.

Rocha alertou para o “complexo de vira-lata” brasileiro, segundo o qual tudo que vem de fora é melhor. Segundo ele, “o que vai sobrar” da Embraer não permitirá mais que a empresa desenvolva e fabrique aeronaves.

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