LEONARDO WEXELL SEVERO

A covarde agressão praticada pelos golpistas bolivianos nesta sexta-feira deixou ao menos 10 mortos, 125 feridos à bala e mais de 200 presos em Sacaba, no departamento de Cochabamba. O morticínio não consegue impedir a ampliação da resistência interna contra os fascistas, além do que multiplica o rechaço internacional ao governo da autoproclamada presidente Jeanine Añez.

Em Sacaba, ao ordenar que as ambulâncias fossem barradas nos pontos de controle para socorrer os trabalhadores rurais alvejados, policiais e militares ultrapassaram todos os limites, declarou o representante da Defensoria do Povo da Bolívia em Cochabamba, Nelson Cox. A triste expectativa é que a gravidade dos ferimentos feitos por armas de grosso calibre multiplique a perda de vidas nas próximas horas, pois muitos já foram diagnosticados com morte cerebral.

O banho de sangue fez com que até a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenasse o “uso desproporcional da força policial e militar”, frisando que “as armas de fogo devem estar excluídas dos dispositivos utilizados pelo controle dos protestos sociais”. Armas extremamente precisas e letais utilizadas por franco-atiradores entrincheirados ou por homens fardados a curta distância.

DERRUBAR A DITADURA FASCISTA

Um dos manifestantes atingido na face

Conforme o relato de um comerciante de Sacaba, que assistiu a repressão passo a passo, “inicialmente o comando militar havia autorizado que a Marcha Pacífica prosseguisse até a cidade de Cochabamba, mas que, para isso, necessitariam abandonar paus ou qualquer objeto que estivessem carregando e que oferecesse risco”. “Contentes de que prosseguiriam, todos os que portavam algo largaram suas coisas. Logo depois veio uma segunda ordem, separando as mulheres – que foram postadas à frente da marcha – dos homens. Foi então que vieram os tiros e a matança”, disse o comerciante, que não se identificou “com medo do que estão fazendo, pois o terror foi instalado”.

Ao longo da semana, na capital, La Paz, continuam aparecendo corpos de manifestantes desaparecidos após os gigantescos protestos realizados contra o golpe e pelo retorno do seu presidente reeleito. Neste sábado, foi a vez do cadáver de um jovem de El Alto aparecer boiando em um rio.

A delegada da Defensoria do Povo do Departamento de La Paz, Teresa Zubieta, expressou sua enorme preocupação “ante a barbárie, ante a violação dos direitos humanos, sobretudo da nossa gente humilde”.

“O fato de sair às ruas e fazer suas próprias reivindicações por acaso precisa ser respondido com a perda de suas vidas?”, questionou Zubieta. E denunciou: “Estão matando a nossos irmãos como se fossem animais”.

Exilado no México, o presidente Evo Morales conclamou os criminosos a que “parem o massacre”. “Condeno e denuncio ao mundo que o regime golpista que tomou o poder por assalto em minha querida Bolívia reprime com balas das Forças Armadas e da Polícia o povo que pede pacificação e a reposição.

A autoproclamada Jeanine Áñez, o fascista Luis Fernando Camacho e o fantoche Carlos Mesa, estão sintonizados, justificando todo e qualquer atropelo que impeça o retorno do “processo de transformações” liderado por Evo. “Para justificar o golpe, Mesa e Camacho nos acusaram de ‘ditadura’. Agora sua ‘presidenta’ autoproclamada e seu gabinete de advogados defensores de violadores e repressores, massacra o povo com as Forças Armadas e a Polícia como a verdadeira ditadura”, sentenciou Evo.

Fortalecendo o caráter fascista da repressão, o governo golpista emitiu um Decreto exonerando de responsabilidade penal os militares que “participarem de operativos para o restabelecimento de ordem interna”, dando sinal verde para a repressão, a tortura e o assassinato em larga escala.