Em nota oficial divulgada hoje, o Partido Justicialista – a mais importante e tradicional agremiação política da Argentina, fundada por Juan Perón em 1946 – põe a nu as supostas vantagens, para o Mercosul, no acordo assinado ontem em Osaka, no Japão, com a União Europeia. “O Mercosul fez importantes concessões em troca de quase nada”, acusam os justicialistas.

O documento dos peronistas afirma: “As mudanças de governos na Argentina e no Brasil marcaram um ponto de inflexão nas negociações. Apesar do caráter secreto em que se desenvolveram as mesmas, foram tornadas públicas as importantes concessões unilaterais realizadas pelo Mercosul, em detrimento do trabalho e de importantes setores da produção nacional, em particular da indústria e das economias regionais. Também se conhecem vários aspectos que abrem mão de decisões soberanas sobre politica econômica e subordinam a legislação e jurisdição nacionais”.

Em entrevista à BBC, o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim também fez críticas à negociação. Para ele, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia foi firmado “no pior momento possível” em termos do equilíbrio de forças entre as partes, em momento de “grande fragilidade negociadora”.

“O momento é o pior possível em termos da capacidade negociadora do Mercosul, porque os dois principais negociadores, Brasil e Argentina, estão fragilizados política e economicamente”, disse Amorim.
“Acho que por isso a União Europeia teve pressa. Porque sabe que estamos em uma situação muito frágil. E quando se está em uma situação frágil, se negocia qualquer coisa. Isso me deixa preocupado. Eu temo que tenham sido feitas concessões excessivas”, completou o ex-chanceler.

Perguntado sobre a importância da inclusão no acordo de termos de compromissos de proteção ambiental, desenvolvimento sustentável, conservação de florestas e direitos trabalhistas, Amorim reagiu com incredulidade, afirmando que o país está longe de cumprir todos os compromissos dos quais é signatário em tratados internacionais.

“Qual é o valor disso? A gente não cumpre nem as normas da OIT (Organização Internacional do Trabalho).”

“Me espanta que os europeus acreditem nisso. Se acreditaram e aceitaram, é porque estavam com muita pressa e com muita vontade”, afirmou Amorim, compartilhando as mesmas preocupações do Partido Justicialista da Argentina.

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