Monitor do Oriente Médio

A  Federação Árabe Palestina (Fepal) existe desde 1979, é composta por palestinos e  descendentes e por brasileiros apoiadores da causa. O objetivo é trazer à luz informações do que acontece na Palestina e também realizar ações junto a políticos e sociedade civil.

O presidente da Fepal, Ualid Rabah, foi entrevistado pelo Monitor do Oriente Médio no momento em que a unidade na Palestina – decidida na última semana – mostrava-se crucial para enfrentar as novas ameaças de anexação e normalização dos Emirados árabes com Israel.

Ao falar do trabalho da Fepal, Ualid faz a crítica da separação as forças palestinas como divisão que interessa à intromissão estrangeira – e não aos palestinos; lamenta os equívocos da diplomacia brasileira e considera que Israel tem fracassado na busca de aliados respeitados pela comunidade internacional.

O que é a Fepal?

É uma organização geral de representação da diáspora palestina brasileira tendo por base as chamadas sociedades palestinas espalhadas pelo Brasil. Foi criada em 1979 em um encontro em Brasília, ano em  já existia o reconhecimento pelo governo brasileiro da OLP. Em 1980 foi realizado o primeiro congresso que formalizou a Fepal, que  não é um partido político ou uma visão segmentada do mundo,mas é claramente anti-imperialista, antirracista e multilateralista, na mesma linha que o movimento palestino sempre teve. É  é uma organização que representa a totalidade dos palestinos, sejam conservadores ou progressistas, religiosos ou não, cristãos ou muçulmanos, busca também manter as tradições, manter nossa cultura, com altos e baixos. Neste momento, estamos tentando recuperar o papel institucional dos palestinos no Brasil,  relativamente prejudicado nos últimos anos.

Como esse papel é resgatado?

Estamos reorganizando a juventude árabe palestina do Brasil, o Sanaúd, e procuramos nos posicionar em documentos e através de atividades. No ano passado, por exemplo,  no Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, emitimos uma carta que foi endereçada ao secretário-geral da ONU, António Guterres e ao mesmo tempo a tornamos o pronunciamento oficial da Fepal. Fizemos  exposição fotográfica denunciando os crimes de Israel com manifestações de solidariedade de grandes personalidades internacionais do mundo cultural, político e acadêmico, chamando inclusive para a campanha de boicote e desinvestimentos e sanções contra Israel (BDS).

Encontro da juventude árabe palestino-brasileira Sanaúd, em Foz do Iguaçu em junho de 2019 [ Foto arquivo pessoal]

Encontro da juventude árabe palestino-brasileira Sanaúd, em Foz do Iguaçu em junho de 2019   [ Foto arquivo pessoal]

Essas atividades são tranquilas? 

Organizações sionistas tentaram impedir a exposição e fizeram uma ampla campanha de difamação contra nós, mas conseguimos derrotá-los em todos os campos, inclusive junto ao Ministério Público, que determinou o arquivamento de uma tentativa de criminalização. Contra isso, estamos promovendo uma resistência muito mais organizada e com uma narrativa muito mais precisa. Iniciamos uma ampla ofensiva no judiciário e já temos várias ações judiciais tramitando contra as manifestações de intolerância religiosa, árabe e palestina  promovidas por  grandes centros de disseminação de ódio  na internet.  Algumas de nossas denúncias  já foram admitidas e já tramitam processos criminais.

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O que mudou com o governo Bolsonaro?

Este governo afeta especialmente os interesses nacionais brasileiros. O que o Brasil ganha tendo relações com Israel que possui uma população com cerca de 8 milhões de habitantes e nos deixa com  um déficit anual de aproximadamente de 1 bilhão de dólares na balança entre os dois países?Isso nunca vai mudar porque Israel não tem tanta gente para comerciar. Com o chamado mundo árabe o superávit da balança comercial brasileira é de mais de 6 bilhões de dólares. Se ampliar para o mundo muçulmano como um todo, esse superávit vai a 16 bilhões de dólares, com o detalhe de que o mundo árabe tem 14 milhões de km² e uma população de 420 milhões de habitantes que estão neste momento tendo relação comercial com o Brasil. Hoje temos uma política externa que se curva curva diante de Israel, um anão diplomático, anão de direitos humanos, anão em todas as decências possíveis, e isso é uma atitude de traição dos interesses nacionais.

 Como analisa a divisão política que a Palestina tem buscado superar?

Nós emitimos mais de um comunicado clamando pela unidade nacional palestina. Defendemos a unidade, independentemente das diferenças de um lado e de outro. Refutamos que potências estrangeiras globais ou regionais nos excluam de nossos direitos legítimos e nos frature para satisfazerem os seus interesses.

Divisão é um horror que não se justifica porque a diferenças são plenamente aceitáveis. Sempre houve um tecido social e político palestino que nunca foi unânime e é absurdo que fosse porque não há unanimidade em nenhuma parte do mundo. Agora não haver uma unidade nacional e um governo de unidade nacional frente a ocupação, é danoso aos interesses palestinos. Mais ainda passar a imagem de divisão entre duas metrópoles palestinas, como se fossem duas unidades nacionais, independentemente dos arranjos impostos pelo colonialismo e arranjos que por ventura sejam forjados modernamente para a resolução da problemática da Palestina. Não podíamos permanecer nesse quadro.

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Ualid discursa na seção especial no Senado, alusiva aos 40 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Palestina – [Foto arquivo pessoal]

Ualid discursa na seção especial no Senado, alusiva aos 40 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Palestina – [Foto arquivo pessoal]

Como fica a cooperação da Autoridade Palestina com Israel?

A chamada cooperação de segurança foi feita no bojo dos Acordos de Oslo, em 1993. Não haveria um acordo com Israel ou um princípio de acordo que não tivesse algum nível de cooperação na área de segurança. Por outro lado, é preciso lembrar que o acordo foi decidido pelas conversações multilaterais de Madri em 1991, patrocinada especialmente pelos EUA e a partir da decadência soviética. O mundo que era bipolar passou a unipolar e, a partir do momento que os EUA ocuparam militarmente o Oriente Médio, a partir da primeira  Guerra do Golfo, os palestinos ficaram apartados do processo. Isso se deu, inclusive, no seio da Liga Árabe porque se colocaram contra a intervenção estadunidense no Iraque e defenderam a OLP e o Yasser Arafat numa solução chamada solução árabe. Algumas petromonarquias ficaram absolutamente descontentes e começaram a isolar ainda mais a OLP. É nesse contexto, além da guerra no Líbano, que deslocou as forças da OLP para fora do entorno da Palestina, que a liderança palestina começou a ter uma inflexão e acreditar que não seria possível reconhecer a questão palestina senão pelo acordo.

O que foi positivo em Oslo?

O Acordo de Oslo editado por um pragmatismo e pela inflexão política. Para ser positivo, dependia do cumprimento da totalidade de resoluções. Se elas não evoluírem para a retirada total de Israel, para o desbloqueio de toda Palestina, especialmente Gaza, se não evoluírem para a solução sobre Jerusalém nos termos da legalidade internacional e sobre a questão dos refugiados que restaura a demograficamente a Palestina histórica, não terá sido positivo. Se esses termos forem resolvidos, podemos considerar algo positivo frente a realidade da chamada comunidade internacional.

Ao contrário disso, os planos de Israel são de mais ocupação e anexação …

Tudo isso é resultado do projeto sionista da segunda metade de 1800 de tomar toda a Palestina e limpá-la etnicamente. Eles não conseguiram realizar isso integralmente em 1948. Por isso precisaram inclusive da guerra de 67. Esse era o projeto e é isso que continua em pé.

Podemos dizer que o sionismo foi derrotado de certa maneira, porque não há nenhuma possibilidade de solução da questão palestina sem a retirada integral de todos os colonos da Cisjordânia, a desmilitarização e acatamento daquilo que hoje é consenso na comunidade internacional, então é preciso retirar.

A anexação é a imposição de um apartheid completo em toda a Palestina, porém muito mais rigoroso.

O que significa, para a Palestina, a normalização entre Emirados Árabes e Israel ?

O acordo é absurdo. Não traz nenhum benefício para os Emirados Árabes Unidos. Eles dizem que conseguiram a suspensão da anexação. Mas e os colonatos ilegais em terras confiscadas que estão ali? E Jerusalém que foi anexada? E os refugiados? E os assassinatos seletivos? E o bloqueio injusto e absolutamente desumano à Gaza? São aspectos que não vejo considerados no acordo. Ao mesmo tempo em que  democracias do mundo inteiro se alinham à necessidade da resolução da questão palestina e não aceitam mais a totalidade dos desejos de israel, os EUA não conseguiram impor na Europa o acordo do século e nem a ideia da anexação. Com isso, Israel e EUA buscam apoio em ditadurazinhas de plantão, algumas novas lideranças orientadas pelo fascismo, então temos isso também como derrota,  pois não conseguem apoio das democracias ocidentais.

Quem busca apoio de regimes brutais é porque não consegue mais apoio dos regimes minimamente civilizados e decentes. Estes estão com a Palestina.

A Fepal apoia a campanha de boicote (BDS) a Israel?

A campanha é fundamental. Precisa ser ampliada e nós estamos compromissados com isso. Não é nada contra as pessoas comuns. Somos contra o regime. A campanha  foi feita na África do Sul sem oposição de quase ninguém no mundo. Estamos albergados pelo direito internacional, pelo direito humanitário e pelo consenso da comunidade internacional. Há iniciativas de boicote muito importantes em países que sempre apoiaram Israel, como por exemplo o Canadá. Então, não vejo nenhum problema nisso e nós da Fepal iremos e já temos um plano para apoiar a campanha pelo BDS até que Israel resolva ceder aos clamores internacionais e acatar o direito internacional no que diz respeito à Palestina.

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