É inacreditável que um governo assuma publicamente sua condição de jihadista (apoiador de terroristas da Al Qaeda) aberta e publicamente, como está fazendo o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, durante discursos no parlamento no último dia 5 de fevereiro. Ele chamou de “elementos amigos” os terroristas do Exército Nacional da Síria (Jaych al-Watani as-Suri) e os da Al-Qaeda que se aliaram a grupos locais para formar a Organização de Libertação do Levante (Hayat Tahrir al-Cham).

Erdogan desafia com suas palavras – e ações – as Nações Unidas e os governos dos EUA e da Rússia. E faz isso com certeza de impunidade porque faz chantagem contra os países europeus ao ameaçar liberar a travessia de milhares de imigrantes ilegais para o continente europeu, ao mesmo tempo em que ameaça os governos dos EUA e da Rússia ao “colocar um pé em cada canoa”, isto é, ao não se posicionar no apoio concreto e este ou aquele país em confronto na região.

No mesmo discurso no parlamento turco, o presidente Erdoğan, brandindo a sua filiação na Confraria dos Irmãos Muçulmanos – matriz dos jihadistas, prosseguiu dando um prazo à Síria, até 28 de fevereiro de 2020, para abandonar as localidades que acabou de libertar e retirar-se para trás da linha de cessar-fogo de Sochi. Ora, o Exército sírio de Bashar Al Assad está vencendo os terroristas (incluindo os apoiados por Erdogan, EUA e Israel) em todas as frentes de batalhas. Recuar após sucessivas vitórias não seria lógico.

Recentemente um homem-bomba do Hayat Tahrir al-Cham (financiado por Erdogan) fez-se explodir num prédio que albergava forças russas. Ainda não sabemos o resultado dessa operação, que entendemos que deveria ser assumida pela Turquia.

Trata-se de uma reviravolta completa da situação. Em 13 de janeiro de 2020, os chefes dos serviços secretos turcos e sírios encontraram-se discretamente em Moscou para estabelecer um processo de paz. Mas, em seguida, para surpresa dos ocidentais, que estavam persuadidos da oposição dos sírios em Damasco, o exército árabe sírio lançou uma ofensiva vitoriosa em Idleb, libertando quinze cidades. Os Estados Unidos apoiaram então a Turquia, enquanto se retiravam de operações conjuntas com o seu aliado. A Turquia suspendeu, em 19 de janeiro, a transferência de 30.000 jihadistas (terroristas) de Idleb (Síria) para Trípoli (Líbia), que tinha iniciado no final de dezembro. Apenas 2.500 tiveram tempo para migrar.

Ao receber os embaixadores estrangeiros para entrega das suas credenciais, o presidente russo, Vladimir Putin, advertiu-os. Declarou: “Infelizmente, a humanidade está mais uma vez perto de uma linha perigosa. Os conflitos regionais multiplicam-se, as ameaças terroristas e extremistas aumentam, o sistema de controlo de armas está prestes a ser abolido.”

Caminhamos, a curto prazo, para um conflito entre a Turquia, membro da OTAN, e a Rússia, membro da OTSC/Organização do Tratado de Segurança Coletiva. Um conflito que pode degenerar em guerra envolvendo vários países da região e as duas maiores potências nucleares do planeta. É tudo que o governo Trump deseja para frear a decadência da economia norte-americana e o fracasso de sua política externa mundial.

Erdogan é um peão neste jogo, embora acredite que esteja revivendo os tempos áureos do Império Otomano. O presidente jihadista da Turquia luta para anexar territórios da Síria e dominar a Líbia. Um sonho alucinado que se transformará em pesadelo para toda a humanidade.