O sírio Youssef H. Mousmar é escritor, tradutor juramentado, diretor da Associação Cultural Sírio Brasileira, muito conhecido por sua grande cultura, simpatia e excelente educação. É visto quase que diariamente no Café da Boca, na Boca Maldita, conversando com sírios e brasileiros.

Esta edição é o início de uma série de reportagens com o título de “A história dos primeiros sírios em Curitiba”. Nas próximas edições daremos continuidade publicando a história de outros pioneiros, imigrantes e personalidades sírias que tanto contribuiram e contribuem com o progresso do nosso país.

Ele é o nosso entrevistado nesta edição.

Fale sobre sua memória dos primeiros sírios no centro de Curitiba.
Youssef – No início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, um dos primeiros imigrantes sírios a chegar a Curitiba e se estabelecer no ramo de importação e exportação de frutas foi Kassen Iskandar, com uma loja no centro da cidade, na praça Tiradentes, que ficou conhecida como a loja Coração da Cidade. Ele era um homem muito bom e generoso. Acolhia os imigrantes que chegavam e tentava ajuda-los de alguma forma. Identificava a profissão do imigrante e procurava ajudar na montagem um estabelecimento no qual ele pudesse trabalhar.
Um dos relatos comoventes que me foi contado trata da vinda de um sírio camponês que não falava português. Kassen Iskandar o recebeu e viu pelas suas roupas que era um homem muito humilde, muito pobre. Trocaram algumas palavras e o senhor Kassen perguntou:
– Como você deixou sua família na Síria? Deixou alguma ajuda para que eles sobrevivessem enquanto você está no Brasil à procura de trabalho?
– Somos muito pobres, senhor. Não deixei nada porque não havia o que deixar.
O senhor Kassen Iskandar pegou o homem pelas mãos e disse:
– Vamos até uma agência bancária. Vou transferir 200 dólares para a sua esposa. Depois você me paga.
Era assim o relacionamento entre os sírios naquela época, de muito respeito, amizade e confiança.
Uma situação engraçada, foi quando chegou outro imigrante que não falava uma palavra em português. Ele procurou o senhor Kassen Iskandar que para ajuda-lo forneceu um carrinho de mão com maçãs para ele vender na praça Zacarias. Mas ele fez amizade com um patrício que era muito brincalhão. Esse amigo se ofereceu para ensiná-lo a vender frutas na praça Zacarias. Disse o amigo:
– Você fica na frente do carrinho gritando “Turco sujo”, “Turco sujo”, e as pessoas vão comprar as suas frutas.
Como ele não sabia o que estava falando, encostou o carrinho de frutas e começou a gritar “Turco sujo”, “Turco sujo”. Numa época em que sírios cristãos, muçulmanos e judeus eram todos chamados de “turcos”.
As pessoas paravam para ver aquele estranho espetáculo, sorriam a acabavam comprando.
No primeiro dia ele vendeu três carrinhos cheios de maçãs.
O senhor Kassen perguntou a ele como conseguia vender tantas maçãs. Ele respondeu que ficava gritando “Turco sujo”. O senhor Kassen sorriu e contou a ele que não deveria gritar aqueles palavras, e explicou o que significavam. Ele ficou muito bravo e quase bateu no patrício brincalhão.
Esse problema de comunicação causou muitos problemas. No dia 8 de dezembro de 1959 o subtenente Antonio Tavares da Polícia Militar do Estado do Paraná comprou um pente pelo valor de quinze cruzeiros e exigiu o comprovante do comerciante libanês Ahmed Najar. Havia na época uma campanha do governo que dava prêmios e todos pediam notas fiscais. Diante da falta de comunicação entre eles, que não se entendiam porque ficaram um pouco alterados, houve uma discussão e o comerciante fraturou a perna do subtenente. Estava iniciado o conflito que ficou conhecido como “A Guerra do Pente”, tendo originado filmes e livros.
Cento e vinte lojas de sírios cristãos, muçulmanos e judeus , italianos e brasileiros, mas todos conhecidos como “turcos” foram depredadas. Algumas delas totalmente destruídas.
Alguns anos depois, conversei com o Ahmed Najar e perguntei o motivo da briga com o subtenente. Ele me explicou com as seguintes palavras:
– Eu estava no balcão e chegou o subtentente. Ele pediu a nota fiscal. Eu falei para a funcionária fazer a nota fiscal para ele. Mas não sei o que aconteceu, ele não entendeu e começou a me xingar, e acabamos brigando.
Outro caso que aconteceu com o Ahmed Najar, ele foi a uma lanchonete onde havia uma moça e um jovem. Estava com fome e decidiu fazer um lanche.
A moça perguntou o que ele desejava. Ele respondeu: – Por favor, quero um pão com beijo.
A moça ficou alterada e chamou o jovem. Ambos reclamaram porque não era certo pedir beijo a uma moça que ele nem conhecia. Foi quando entrou na lanchonete outro patrício que sabia falar português corretamente. Ele explicou em árabe o que estava acontecendo e as coisas foram aclaradas: ele queria pão com queijo, mas na pronúncia do árabe saiu “pão com beijo”.
Outro pioneiro na cidade foi Hussein Zraik, pai do Zak Zraik , dono da Calçados Glória na Praça Tiradentes. Ele tinha uma loja bem grande, o primeiro supermercado de Curitiba que se chama Armazém Damasco.
A solidariedade era uma marca dos árabes. Eles chegaram também como refugiados durante a Primeira Guerra Mundial. Os primeiros que chegaram ajudavam os que chegaram depois, que chegavam sem nada.

Fale sobre a festa em que você discursou para o então governador Ney Braga.
Youssef – Foi numa grande reunião na Sociedade Muçulmana do Paraná, durante o governo Ney Braga. Quando eu cheguei ao Brasil, em dezembro de 1969, eu cheguei da Síria falando português. Meu pai havia passando um tempo no Brasil e ao retornar eu estudei português.
Em meu discurso falei que nós imigrantes somos como uma árvore, e nossas raízes se entrelaçam com as raízes de outros povos. Quando você retirar a raiz de uma árvore, ela morre. Mas quando a raiz se entrelaça e se mantem unida e forte, a árvore dá frutos e flores, e tem vida. O mesmo acontece com as casas. Quando fechamos todas as portas e janelas, estragamos o ar e as pessoas adoecem. Nós somos um povo histórico e civilizado. Não podemos cortar nossas raízes com a nossa terra, e não podemos deixar nossas raízes se perderem. E assim, se nós queremos viver entre os brasileiros, devemos nos misturar com o povo brasileiro e entrelaçar nossas raízes da pátria mãe (Síria) com a nova pátria. E a nossa terra mãe é uma continuidade no Brasil. Devemos entrelaçar nossas raízes. Por isso devemos abrir nossas portas e janelas, abrir nossa casa para os brasileiros. E sendo assim, não podemos nos fechar em clubes ou organizações, mas entrar e participar dos clubes e sociedades brasileiras. Não podemos trair a nossa primeira pátria porque aquele que trai a sua primeira pátria vai também trair a segunda pátria, o Brasil. E nós não somos traidores. Foi então que o Ney Braga se levantou e me abraçou.
Naquela época – década de 60 – o clima era de muita harmonia, não havia brigas, divisões de seitas, religiões, etnias, ideologias.
Todos aqueles que vivem aqui são sírios, falam árabe, mas não são da Arábia. A palavra árabe, para definir todos os povos de algumas regiões, foi estabelecida pelos colonizadores e imperialistas. Aqueles que se dizem libaneses, palestinos, iraquianos, e muitas outras nacionalidades são sírios. Esta afirmação provoca discussões, mas vou explicar a razão. A Síria é um ambiente geográfico distinto do ambiente geográfico da Arábia.
Antes da Síria, aquela região que compreendia dezenas de países se chamava Aram, o centro de uma região estendida por três continentes, e ligada aos 5 continentes através da África, Europa, Ásia, mar Mediterrâneo e Golfo.
Quando Jesus Cristo chegou à região, há mais de 2 mil anos, ele chegou falando aramaico. Ele chamou a região de “Síria”, que significa luz, terra da luz, porque foi onde aceitaram seus ensinamentos. O nome Síria significa “terra da luz”. Sírio significa “iluminado, instruído”. Arábia vem da palavra araba, que significa deserto. Quem vive na Araba se chama árabe, e quem vive na Síria, se chama sírio. Quem nasce no Brasil é brasileiro, quem nasce no Paraná ou no Nordeste, é brasileiro. E quem nasce na região da antiga Aram, hoje Síria, é sírio.
Naquele tempo o alfabeto não tinha as letras “c” e “s”. Era uma letra só. A palavra para o mundo ocidental foi divida na tradução. No Brasil quando falamos sírio com “s” é nacionalidade. Mas círio com “c” significa vela. Esta vela vem do tempo em que Jesus Cristo falou que não se pode colocar a vela embaixo da mesa, mas em cima da mesa para que ela ilumine o ambiente. A luz deve iluminar o caminho das pessoas. Por isso Jesus disse “Eu sou a luz”, e veio ao mundo para iluminar os caminhos dos homens.
Quem nasceu no deserto nasceu na Araba, ou na Arábia, é árabe. Quem nasceu no Aram, na Síria é sírio. Sírio significa iluminado, instruído. Sírio é aquele que nasceu na terra da mãe da civilização humana, local de nascimento do alfabeto, primeira nota musical, primeiras ciências, primeiras leis do mundo, primeira roda, instrumentos de navegação, por isso a Síria é também chamada de Crescente Fértil.

Fale sobre a divisão da Síria desde a Primeira Guerra Mundial.
Youssef – Depois da Primeira Guerra Mundial os ingleses, franceses e norte-americanos se uniram para dividir a Síria, praticando a velha máxima de “dividir para dominar”.
Havia um estado sírio onde havia uma montanha chamada Monte Líbano, era um estado da Síria. Primeiro anunciaram a declaração do estado do Pequeno Líbano. Mas uma montanha não pode ser um estado. Então aumentaram quatro distritos para criar o Líbano: Beirute, antigo Porto de Damasco, sul do Líbano, vale de Beka e norte do Líbano, e assim criaram um estado de 10.452 km2. No Brasil tem muitas fazendas que são maiores que o Líbano. E nas imediações do Rio Jordão os ingleses criaram um principado e depois o Reino da Jordânia. Ora, não existia Jordânia, era tudo Síria.
A Palestina era a costa ocidental da Síria. Iraque é uma palavra que significa “leste do Irã”, e lá fizeram um reino também. A Síria atual só conservou o nome porque seu território foi divido para a criação do Líbano, Palestina, Iraque, Jordânia, Kuwait e agora Israel. Nesse ambiente geográfico chamado Síria nasceu a primeira civilização do mundo.
A maioria dos imigrantes são da Síria. Eles falam árabe porque o idioma foi difundido com o surgimento do islamismo. O árabe é a língua do profeta Mohamad. Ele criou este idioma. Antes do profeta Mohamad havia milhares de línguas e idiomas naquela região. Cada tribo falava um idioma e não se entendiam. Então chegou o profeta Mohamad e criou essa língua que estamos falando hoje, que foi disseminada na expansão do Islã.

Quando se fala de 22 países árabes com a mesma língua e a mesma tradição, estamos falando da Síria?
Youssef – A Síria levou o árabe para o Egito, para o ocidente árabe com a mensagem islâmica. Mas desde a morte do profeta Mohamad (Maomé), a Península Árabe não produziu nenhum grande filósofo ou escritor, pelo contrário, regrediu no tempo em termos culturais com as monarquias instaladas pelos imperialistas. A maioria dos intelectuais árabes de hoje estão fora da Península Árabe. Estão na Síria dividida (pequena Síria, Líbano,Iraque, Jordânia, Palestina e Kuwait), Egito no ocidente árabe (Tunísia, Líbia, Argélia e Marrocos), mas na Península Árabe que foi chamada depois da Segunda Guerra Mundial de Arábia Saudita, criada pelos ingleses, é um reino das trevas. Os ingleses criaram o Reino da Arábia Saudita, e colocaram para governar um membro da família Saud. E todos aqueles que nascem na Arábia Saudita são chamados de sauditas. Ora, as pessoas não são da família Saud, mas são sauditas. É o mesmo de que chamar todos os brasileiros de Silvas ou Bragança, ou da família de Fernando Henrique Cardoso ou de Lula. Os brasileiros aceitam ser chamados de outro nome que não seja brasileiros?

Todos os movimentos políticos sírios ou árabes de hoje são religiosos?
Youssef – Os colonialistas e imperialistas (ingleses, franceses e norte-americanos) tentaram dividir tudo, dividir a terra e dividir a mentalidade dos povos, por isso você encontra muitas seitas religiosos, muitos grupos étnicos. Os imperialistas dividem para dominar, fomentam os conflitos e guerras. Mas, além disso, existe na Síria movimentos culturais, intelectuais, de artes, ciências, movimentos civilizados. O movimento Nacionalista Social Sírio foi fundado por um filósofo que viveu no Brasil, estudou em São Paulo, chamado Antoun Saadeh.
Quando os colonialistas e imperialistas (ingleses, franceses e norte-americanos) começaram a dividir a Síria, ele fundou o Partido da Unidade da Nação. Ele foi o único líder que recusou a divisão do país, enquanto muitos políticos aceitaram a divisão do país porque foram subornados pelos estrangeiros. Após regressar à Síria de seu período de estudos em São Paulo, ele não aceitou a divisão da pátria e fundou um partido, um movimento que sempre trabalhou e trabalha pela unificação do país. Ele queria fazer o renascimento, resgatar uma vida civilizada, de progresso, e não o retrocesso religioso medieval das monarquias árabes. Ele fundou uma filosofia nova chamada Nacionalismo Social. É um termo composto por duas palavras: Nação e Social.
Nação significa todo o povo que vive no meio ambiente. Social abrange toda a sociedade, por isso Nacionalismo Social é muito diferente do nacionalismo racista (nacional-socialismo ou nazismo), nacionalismo sectário, nacionalismo religioso. De acordo com o nacionalismo religioso podemos falar de muitos movimentos e seitas, por exemplo, nacionalismo católico, nacionalismo ortodoxo, nacionalismo judaico etc. Nacionalismo-Social abrange todas as religiões, seitas, raças, origens, etnias, cores etc. Por isso não podemos falar de nacionalismo racista, étnico ou sectário, de um grupo qualquer. Quando falamos de Nacionalismo-Social brasileiro significa que engloba toda a nação brasileira, toda a terra brasileira, independente de religião. E quando uma nação se desenvolve, progride, com união do povo, pode apoiar e ajudar outras nações. Mas se ficar fracionada, dividida em seitas ou religiões, será sempre fraca. Por isso esse nacionalismo social é uma filosofia nova, uma nova teoria, uma doutrina de progresso que prega o respeito à integridade de cada país, o fortalecimento de cada nação para que todos se unam, se ajudem e se fortaleçam a fim de “realizar uma vida nova melhor num mundo novo mais avançado com belos valores humanos mais elevados e mais civilizados” como disse o fundador do Movimento Nacionalista-Social, o sociólogo e filósofo sírio Antoun Saadeh, que foi assassinado sem julgamento por causa de sua doutrina Nacionalista-Social-Síria, que ainda vive e continua brilhando através do Partido Nacionalista-Social-Sírio que comemorou o seu aniversário de 85 anos em 16.11.2017 em Beirute, capital do Líbano.
E assim como Jesus Cristo falou que todos os homens são irmãos, podemos falar também que todas as nações são irmãs, e quando falamos que são irmãs, devem colaborar para construir uma nova humanidade, baseada na verdade, na beleza, na justiça, no respeito mútuo, na colaboração entre todos, e assim podemos criar um novo ser humano que respeita e trabalha em unidade para beneficiar de todos, buscando o progresso mundial, e não apenas o de uma nação.

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Fotos das comemorações em Beirute, capital do Líbano, dos
85 anos do Partido Nacionalista-Social-Sírio
Dia 16 denovembro de 2017

Honra aos Mártires do Partido Nacionalista-Social-Sírio
A guerra de libertação da Síria contra os terroristas patrocinados por dezenas de países ocidentais e monarquias árabes, contou – e conta – com a participação decisiva dos combatentes do Partido Nacionalista-Social-Sírio, que formam as linhas de frente nos combates mais aguerridos.
Denominados “Águias do Ciclone”, os combatentes do Partido Nacionalista-Social-Sírio estão integrados às Forças Armadas da República Árabe Síria. Com muita coragem, honra e lealdade à Pátria, tem hoje mais de 1.000 mártires nesta guerra. Guerreiros imortais da liberdade.

Atual Presidente do partido Dr. Hanna Annahchef